28/07/2026
Produzir mais deixou de significar ganhar mais | AgroNortão – Economia
O agronegócio brasileiro segue batendo recordes de produção, investindo pesado em tecnologia e sustentando boa parte da balança comercial do país. E, ainda assim, para uma parcela cada vez maior de produtores, a conta no fim da safra não fecha como deveria. Esse é o paradoxo que hoje define o campo: crescer em volume enquanto a margem encolhe.
A explicação está em duas forças que empurram o produtor rural em direções opostas, como se ele estivesse dentro de uma prensa. De um lado, os preços internacionais das commodities perderam parte do fôlego que sustentaram na última década. De outro, o custo do crédito não parou de subir, pesando cada vez mais sobre uma atividade que depende de financiamento em praticamente todas as suas etapas.
Para onde foi o dinheiro que sustentava as commodities | AgroNortão – Economia
Durante anos, o mercado financeiro global apostou nas commodities agrícolas, impulsionado pelo crescimento da China e de outras economias emergentes, que sustentava a expectativa de uma demanda crescente por alimentos e matérias-primas. Esse fluxo de capital ajudava a manter os preços agrícolas em patamares mais favoráveis ao produtor.
Parte relevante desse capital, no entanto, migrou para outro destino: a inteligência artificial e a infraestrutura digital passaram a concentrar volumes expressivos de investimento, disputando espaço com mercados que antes recebiam boa parte desses recursos. Isso não explica sozinho a queda dos preços agrícolas, mas ajuda a entender por que o cenário internacional se tornou menos generoso com quem produz.
Como nasce o juro que o produtor realmente paga | AgroNortão – Economia
Um engano comum é achar que a Selic é o juro cobrado do produtor rural. Não é. A Selic é apenas a taxa básica da economia; quando o crédito chega efetivamente ao campo, ele já vem carregado de custo de captação, despesas operacionais, margem financeira e, principalmente, percepção de risco.
É justamente aí que a pressão se intensifica. As instituições financeiras não avaliam o passado do produtor, avaliam sua capacidade futura de honrar o compromisso, e quando a rentabilidade cai, o risco percebido sobe junto, encarecendo o crédito. No agronegócio, esse risco ganha um agravante permanente: o clima, com secas, geadas e chuvas em excesso capazes de comprometer uma safra inteira em poucas semanas.
O papel do seguro rural para romper o ciclo | AgroNortão – Economia
É nesse ponto que o seguro rural deixa de ser apenas uma proteção individual do produtor e passa a ocupar um papel estratégico na política agrícola do país. Quando existe um sistema de seguro robusto, parte das perdas causadas pelo clima é absorvida pelas seguradoras, o que reduz o risco da atividade e permite que o crédito chegue ao campo em condições mais favoráveis. Nos Estados Unidos, mesmo com quase toda a área agrícola protegida por um sistema fortemente apoiado pelo governo, os produtores já sentem o aperto do aumento de custos, o que ajuda a dimensionar o tamanho do desafio brasileiro, onde a cobertura securitária ainda alcança apenas uma fração da produção.
Sem um programa consistente de seguro rural, o crédito tende a ficar mais caro, mais seletivo e mais restritivo, fechando um círculo vicioso: a rentabilidade cai, o risco sobe, o crédito encarece, o custo financeiro aumenta, e a rentabilidade cai de novo. Romper essa dinâmica exige, ao mesmo tempo, mais previsibilidade macroeconômica e um sistema de seguro rural mais forte, capaz de tirar parte do peso do risco climático das costas de quem produz.
O produtor brasileiro já aprendeu, com décadas de experiência, a conviver com o clima. O que ele não consegue enfrentar sozinho é um ambiente econômico que aperta sua rentabilidade dos dois lados ao mesmo tempo. Aliviar essa pressão, por meio de estabilidade fiscal, juros mais compatíveis com a realidade do campo e um seguro rural mais amplo, não é apenas uma pauta de interesse do produtor: é uma condição para manter a competitividade do agronegócio brasileiro e, com ela, a segurança alimentar de todo o país.
Este texto foi elaborado pelo AgroNortão a partir de dados e argumentos publicados originalmente em análise do economista Miguel Daoud no Canal Rural.
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