Produção recorde não é mais sinônimo de lucro. Entenda como a combinação de juros elevados, custos de insumos e a falta de seguro rural criaram a tempestade perfeita para o produtor neste início de ano.
Por Redação | 07 de Janeiro de 2026
O ano de 2026 começa com um cenário desafiador que especialistas já batizaram de “Teste de Sobrevivência”. Apesar das projeções indicarem volumes robustos para as safras de soja e milho, o agronegócio brasileiro enfrenta uma crise silenciosa, porém severa: a crise de rentabilidade.
Em declaração emitida hoje, o ex-ministro da Agricultura e atual coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV), Roberto Rodrigues, trouxe à tona o conceito de “paradoxo da produtividade”. O termo define a atual situação onde o sucesso agronômico (colher bem) não se traduz em sucesso econômico (lucrar), devido ao estrangulamento das margens financeiras.
O Peso dos Juros e o Custo do Dinheiro
O fator central desta crise reside na macroeconomia. Com a taxa Selic e os juros de mercado operando em patamares elevados para conter a inflação, o custo do crédito rural disparou.
Para o produtor que financiou a safra atual, a conta não fecha facilmente. O custo de capital alto corrói a margem de lucro antes mesmo da colheita sair do campo. Especialistas de mercado apontam que a alavancagem excessiva, que funcionou em anos de commodities supervalorizadas, tornou-se a maior armadilha para 2026.
A Vulnerabilidade do Seguro Rural
Outro ponto crítico levantado por Rodrigues e endossado por analistas do setor é a fragilidade da proteção ao patrimônio do produtor. Segundo dados apresentados:
“O Brasil vive uma deficiência crônica no seguro rural, que hoje cobre menos de 3% da área plantada no país.”
Esse dado alarmante expõe o produtor a um risco desproporcional. Sem uma apólice de seguro adequada, qualquer intempérie climática — mesmo que pequena — pode significar a insolvência financeira da propriedade, já que não há “colchão de liquidez” para absorver prejuízos.
O Foco Agora é Gestão, Não Apenas Clima
A análise da FGV sugere uma mudança de paradigma urgente para o ciclo 2026. Se antes o olhar do produtor estava 100% focado no céu (clima), agora ele precisa estar focado na planilha (gestão).
Os pilares para atravessar este “ano de ajuste” incluem:
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Gestão Rigorosa do Endividamento: Renegociação de passivos e cautela na tomada de novos créditos.
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Travamento de Custos (Hedge): Uso de ferramentas financeiras para garantir preços de venda que cubram os custos de produção, fugindo da especulação.
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Eficiência Operacional: Redução de desperdícios na aplicação de insumos, cujos preços, embora estabilizados, ainda pesam no orçamento devido ao câmbio.
O ano de 2026 não será medido em sacas por hectare, mas em reais que sobram no bolso. O alerta de Roberto Rodrigues serve como um chamado à profissionalização financeira. O agronegócio continua sendo a locomotiva do país, mas, neste ano, a locomotiva precisará frear os gastos para não descarrilar na curva dos juros.
