O Mato Grosso, coração do agronegócio brasileiro e maior produtor de soja do país, enfrenta um cenário de transformações econômicas na safra 2025/26. A recente queda nos preços dos fertilizantes, após anos de altas expressivas, trouxe alívio aos produtores, mas os impactos nos custos de produção e na rentabilidade ainda geram debates. Este artigo analisa como a redução nos preços dos fertilizantes está influenciando os custos de produção no estado, os desafios remanescentes e as perspectivas para a próxima safra, com base em dados do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMEA) e outras fontes confiáveis.
Contexto da Queda nos Preços dos Fertilizantes
Entre 2021 e 2023, os preços dos fertilizantes atingiram picos históricos, com o custo da tonelada de adubos químicos chegando a US$ 790 em junho de 2022, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Essa escalada foi impulsionada por fatores como a crise energética global, interrupções na cadeia de suprimentos, restrições de exportação por países como China e Rússia, e a alta do dólar. No entanto, a partir de 2023, o mercado começou a registrar quedas significativas. Até abril de 2023, o preço dos fertilizantes caiu 45%, alcançando US$ 440 por tonelada, conforme dados do mesmo ministério. Em 2024, o cloreto de potássio (KCl) apresentou retrações de 3,7% em Mato Grosso, enquanto o fosfato monoamônico (MAP) e a ureia registraram altas moderadas, de 8,9% e 3,1%, respectivamente.
Para a safra 2025/26, o cenário é de relativa estabilidade, com quedas pontuais em alguns insumos. O IMEA aponta que os fertilizantes agrícolas no Mato Grosso representam cerca de 35% do custo total de produção do algodão (R$ 3.913,44/ha) e uma fatia significativa para a soja (R$ 1.860,00/ha), embora com um incremento de 7,6% em relação à safra anterior. Apesar disso, a redução nos preços de alguns fertilizantes, como o KCl, tem permitido aos produtores aliviarem parte da pressão financeira.
Impactos nos Custos de Produção no Mato Grosso
O custo de produção no Mato Grosso varia significativamente entre culturas. Para a soja, o custo total por hectare na safra 2025/26 é estimado em R$ 7.430,00, um aumento de 4,5% em relação à safra anterior, com os fertilizantes respondendo por R$ 1.860,00/ha. Para o milho, o custeio gira em torno de R$ 6.500/ha, enquanto o algodão, cultura de alta demanda tecnológica, supera R$ 18.000/ha. A queda nos preços de fertilizantes, especialmente do KCl, trouxe benefícios, mas não foi suficiente para compensar outros fatores de pressão, como a desvalorização do real (14,8% em 2024) e a alta de matérias-primas como enxofre (+50% em 2024).
A relação de troca entre grãos e insumos, um indicador crucial para os produtores, melhorou ligeiramente para o KCl, exigindo 23,07 sacas de soja por tonelada em 2024, contra 24,59 em 2023. No entanto, para o MAP, a relação piorou, com 35,3 sacas necessárias por tonelada, ante 30,57 no ano anterior. Essa dinâmica reflete um cenário misto: enquanto a queda no preço de alguns fertilizantes reduz os custos, a alta de outros, como o MAP (+20% em março de 2025, atingindo R$ 4.750/t), e a valorização do dólar (R$ 5,88) mantêm os desafios.
Desafios e Estratégias dos Produtores
A aquisição de fertilizantes para a safra 2025/26 no Mato Grosso está em ritmo lento, com apenas 38,4% dos produtores tendo comprado os insumos até fevereiro de 2025, bem abaixo da média histórica. Esse atraso reflete a incerteza econômica e a dificuldade de acesso a crédito, com 43,5% dos produtores sem definição sobre o financiamento das compras. Além disso, 56% dos produtores consideram a relação de troca desfavorável, o que leva muitos a reduzirem a aplicação de fertilizantes, como o MAP (10,6% planejam diminuir as doses) e o KCl (47,3% não utilizarão). Essa redução pode comprometer a produtividade, com impactos potenciais na oferta de grãos e na inflação de alimentos, estimada em 5,65% pelo IPCA para 2025.
Para mitigar esses desafios, os produtores têm adotado tecnologias de agricultura de precisão, como o monitoramento por satélite oferecido por plataformas como a Farmonaut, que otimiza a aplicação de fertilizantes e defensivos, reduzindo custos. Outra estratégia é a negociação antecipada de insumos, aproveitando momentos de preços mais favoráveis, como observado com o KCl em novembro de 2024 (US$ 285/t).
Perspectivas para a Safra 2025/26
Apesar da queda nos preços de alguns fertilizantes, o cenário para a safra 2025/26 no Mato Grosso permanece desafiador. A CNA projeta uma safra robusta, com aumento de 20% na produção de soja e 4% no milho, mas a rentabilidade dependerá da gestão eficiente dos custos e da comercialização estratégica. A instabilidade geopolítica, como conflitos no Oriente Médio afetando a logística de fertilizantes, e a alta do dólar podem pressionar os preços novamente. Por outro lado, a maior oferta global de fertilizantes e a retomada de exportações de países como o Egito podem estabilizar o mercado.
O presidente da Aprosoja-MT, Lucas Costa Beber, alerta para os riscos de cortes na adubação: “Com custos altos e crédito escasso, o fertilizante é um dos primeiros alvos, mas isso reduz a produtividade e eleva os preços dos alimentos”. Para evitar impactos inflacionários, especialistas sugerem que o governo federal invista em políticas de equilíbrio fiscal e amplie parcerias comerciais com países como a China para garantir o abastecimento de insumos.
Conclusão
A queda nos preços de fertilizantes, como o KCl, trouxe um alívio parcial aos produtores de Mato Grosso, mas os custos de produção seguem pressionados por fatores como a alta do dólar, a elevação de outros insumos como o MAP e a incerteza no financiamento. A safra 2025/26 exigirá dos agricultores do estado uma combinação de tecnologia, planejamento estratégico e monitoramento de mercado para manter a competitividade. Ferramentas digitais e práticas sustentáveis serão essenciais para otimizar os custos e garantir a produtividade, em um cenário onde o equilíbrio entre investimento e retorno financeiro é mais crucial do que nunca.
