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O Peso de Brasília e Washington sobre a Cotação do Dólar e do Euro: Análise Semanal e Perspectivas para o Real

A dinâmica do Real brasileiro (BRL) encerrou a semana sob um ambiente de alta incerteza, com a cotação da moeda frente ao Dólar americano (USD) e ao Euro (EUR) refletindo uma confluência de pressões internas e externas. A volatilidade do mercado de câmbio, que tem sido uma constante nos últimos anos, foi exacerbada por um novo e significativo vetor de risco: o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Este evento político, de alta visibilidade, não é percebido pelo mercado apenas como um fato isolado, mas como um catalisador de um conjunto de riscos sistêmicos, com implicações que transcendem o cenário doméstico e se estendem aos domínios diplomático e fiscal.

A desvalorização recente do Real, que reverteu a tendência positiva observada no início de 2025 , é impulsionada pela combinação de uma política fiscal expansionista no Brasil, pela atratividade contínua dos juros elevados nos Estados Unidos e, de forma preeminente, pelo aumento da percepção de risco institucional e geopolítico. A incerteza em torno do desfecho do julgamento e suas possíveis repercussões internacionais, incluindo a ameaça de sanções econômicas, tem adicionado um prêmio de risco considerável aos ativos locais, levando investidores a se protegerem e a buscarem maior segurança em moedas fortes.  

Para a próxima semana, a expectativa é de continuidade da volatilidade. O mercado monitorará de perto o desdobramento do julgamento, as falas de autoridades econômicas brasileiras sobre a política fiscal e os dados de emprego dos Estados Unidos, que fornecerão novas pistas sobre a futura política monetária do Federal Reserve (Fed). O presente relatório explora em profundidade a interconexão desses fatores, demonstrando como a política, a economia e a geopolítica se fundem para ditar o valor da moeda brasileira.

 

1. Câmbio sob Tensão: A Performance Semanal do Real

 

 

1.1. As Cotações da Semana e a Volatilidade Diária

 

A semana se encerrou com o Dólar Comercial (USD/BRL) cotado a R6,371. A movimentação diária do Dólar foi marcada por uma notável flutuação, operando em uma banda de R  

5,4317. Essa volatilidade é um retrato fiel da incerteza que permeia o mercado, com a moeda reagindo intensamente a cada nova informação. O Dólar turismo, por sua vez, foi negociado em um patamar superior, com variação de R  

5,644.  

Em uma análise mais ampla, a performance do Real em 2024 foi uma das piores entre as moedas emergentes, com o Dólar encerrando o ano a R5,40 , indica que essa tendência de valorização não se sustentou, demonstrando que o “vai e vem” da moeda é o tema mais marcante dos últimos anos. Essa performance errática reflete a alta sensibilidade da moeda a choques de informação e eventos de risco, tornando qualquer projeção de valorização adicional “permanente” improvável.  

 

1.2. Tabela 1: Cotações e Variações Semanais

 

A seguir, a Tabela 1 oferece um panorama detalhado da performance cambial, permitindo a visualização clara da magnitude das variações e das cotações das principais moedas em relação ao Real.

Moeda Cotação de Venda (R$) Variação Semanal (%) Fechamento Anterior (R$)
Dólar Comercial (USD/BRL) 5,438 5,4125  

Dólar Turismo 5,644
Euro (EUR/BRL) 6,371
Libra Esterlina (GBP/BRL) 7,374
Dólar Canadense (CAD/BRL) 3,965
Iene (JPY/BRL) 0,0478

Fonte: Dados consolidados das fontes de pesquisa  

 

2. O Fator Político: Como o Julgamento de Bolsonaro Molda o Mercado

 

 

2.1. O Julgamento como Vetor de Instabilidade Doméstica

 

O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) emergiu como o principal catalisador da aversão ao risco no mercado brasileiro. O evento, de alta visibilidade, tem o potencial de impactar diretamente os prêmios de risco, a curva de juros e o câmbio, a depender da percepção do mercado sobre a estabilidade institucional. O aumento da incerteza política leva à fuga de capital, impulsionando a desvalorização do Real.  

A análise do influente jornal britânico Financial Times classificou o julgamento como “arriscado”, destacando que o caso lançará uma “longa sombra” sobre as eleições de 2026. O veículo compara a situação de Bolsonaro à de Donald Trump, argumentando que os problemas judiciais do ex-presidente brasileiro, em vez de prejudicá-lo, podem torná-lo um “mártir”, enfurecendo seus apoiadores. Essa prolongada indefinição e polarização política, que se estende para além do julgamento, é um fator de desestabilização para o mercado. A ausência de um cenário político claro e previsível no médio prazo compromete a confiança dos investidores de longo prazo, impactando os fluxos de investimento estrangeiro e, consequentemente, a cotação do câmbio.  

 

2.2. Repercussões Geopolíticas: O Atrito com os EUA e o Risco de Sanções

 

O julgamento do ex-presidente é um “vetor de instabilidade” não apenas na política interna, mas também nas relações exteriores do Brasil. A proximidade de Bolsonaro com Donald Trump, construída entre 2017 e 2021, ressurge como um ponto de atrito diplomático entre Brasília e Washington. A análise de especialistas sugere que uma eventual condenação de Bolsonaro pode ser utilizada por Trump para fortalecer sua narrativa de perseguição a aliados conservadores, o que explicaria o risco de medidas punitivas imediatas.  

O governo Lula considera “provável” que a administração de Trump imponha novas sanções econômicas ao Brasil, a exemplo do “tarifaço” já anunciado em agosto, que impactou setores importantes da indústria nacional, como o siderúrgico, químico e têxtil. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que essas medidas podem resultar em uma perda de até R$ 20 bilhões para a economia brasileira neste semestre. A Casa Branca está monitorando de perto o julgamento e pode anunciar sanções “em tempo real”. O desdobramento político doméstico, portanto, é apenas o gatilho para um risco de natureza diplomática e econômica de escala global, que pode prejudicar as exportações brasileiras e a entrada de capital estrangeiro, afetando diretamente o saldo comercial e a demanda por Real.  

 

2.3. O Dilema do Setor Financeiro

 

Em meio à tensão política e geopolítica, o setor bancário brasileiro se depara com um “dilema significativo”. Uma decisão recente do STF estabeleceu que leis ou sanções judiciais de outros países não têm efeito automático no Brasil e devem passar por um processo de homologação pela justiça brasileira. Esta determinação coloca as instituições financeiras em uma posição delicada: elas precisam escolher entre acatar a decisão do STF ou arriscar sofrer penalidades internacionais bilionárias, como as que o Tesouro Americano já impôs a bancos europeus por violarem determinações similares. Essa insegurança jurídica sistêmica adiciona uma nova camada de risco ao ambiente de negócios no Brasil, podendo afastar investidores e dificultar as operações internacionais de bancos e empresas que dependem de fluxos de capital global. A incerteza gerada pela interconexão entre política, direito e finanças é um fator de desvalorização estrutural para o Real.  

 

3. Os Fundamentos Macroeconômicos em Xeque

 

 

3.1. Cenário Doméstico: O Desafio Fiscal e a Política de Gastos

 

O atual quadro de expansão fiscal no Brasil tem gerado impactos significativos no câmbio, exercendo pressão tanto no mercado financeiro quanto no comercial. O aumento dos gastos públicos eleva os prêmios de risco dos ativos locais, resultando em maior aversão por parte dos investidores estrangeiros. Adicionalmente, o crescimento da atividade econômica impulsionado pelos gastos do governo estimula a demanda interna, que nem sempre é suprida pela produção nacional, levando a um aumento das importações. Esse desequilíbrio tem resultado em um fluxo de divisas mais “tímido” em 2024, com o aumento das compras de produtos e serviços do exterior sendo um dos principais fatores para a ampliação da saída de recursos.  

A pesquisa do FGV IBRE aponta que a sustentabilidade da economia brasileira exige uma “correção da política fiscal” para conter a deterioração das condições financeiras e reequilibrar a macroeconomia. A taxa básica de juros, a Selic, está em um patamar elevado, em 14,75% ao ano , como principal instrumento do Banco Central para combater a inflação. No entanto, a incompatibilidade entre uma política fiscal expansionista e uma política monetária contracionista cria uma tensão que o mercado monitora com cautela. A falta de sinergia entre as políticas é um dos fatores estruturais que contribui para a desvalorização do Real.  

 

3.2. Cenário Externo: A Bússola do Fed

 

O Dólar americano, que se fortaleceu 6,8% em 2024, atua como uma “bússola para a economia mundial”. A decisão do Federal Reserve (Fed) de manter os juros elevados, entre 5,25% e 5,50%, em seu maior patamar em 23 anos, atrai o fluxo de capital para a economia norte-americana. Isso resulta na valorização do Dólar em relação a outras moedas, incluindo o Real, e na saída de investimentos do Brasil. Até abril deste ano, investidores estrangeiros já haviam retirado R$11 bilhões da Bolsa de Valores brasileira.  

Embora o Fed tenha sinalizado um potencial “dovish tilt” (uma postura mais flexível que poderia levar a cortes de juros), a trajetória e a magnitude desses cortes ainda são incertas. O Real opera em um pêndulo, extremamente vulnerável às expectativas e sinais do Fed. A simples especulação sobre uma mudança na política monetária americana pode temporariamente fortalecer a moeda brasileira, enquanto a manutenção de uma postura agressiva a enfraquece. Essa dualidade de expectativas é uma fonte perene de volatilidade para o BRL, expondo a sua vulnerabilidade a narrativas globais, e não apenas a dados concretos.  

 

4. Perspectivas e Cenários para a Próxima Semana

 

 

4.1. Pontos de Atenção e Eventos-Chave

 

A próxima semana será marcada pela contínua influência de eventos políticos e econômicos que podem determinar a trajetória do Real. Os principais pontos a serem monitorados incluem:

  • Julgamento do Bolsonaro: O desfecho ou a continuidade do julgamento no STF será o fator de risco mais importante. O mercado buscará sinais de estabilidade institucional ou de aumento da polarização política.  
  • Dados Econômicos dos EUA: Relatórios sobre o mercado de trabalho e inflação nos Estados Unidos podem influenciar a expectativa de juros do Fed, afetando a atratividade do Dólar e, consequentemente, os fluxos de capital global.  
  • Política Fiscal Brasileira: Quaisquer declarações de autoridades do governo sobre o novo arcabouço fiscal ou o endividamento público serão acompanhadas de perto. O mercado reage negativamente a sinais de expansão de gastos.  
  • Repercussão Internacional: A reação de diplomatas e veículos de imprensa estrangeiros, como o Financial Times, ao julgamento pode fornecer pistas cruciais sobre o risco de sanções e a percepção de risco externo.  

 

4.2. Tabela 2: Fatores de Risco e Seus Impactos Potenciais

 

A Tabela 2 sintetiza a análise dos riscos, oferecendo um guia para que o leitor possa mapear as potenciais reações do mercado aos principais eventos da próxima semana.

Fator de Risco Impacto Potencial no Câmbio (USD/BRL) Justificativa
Julgamento STF Desvalorização ou Estabilização Risco Institucional e Geopolítico. Um desfecho inesperado (positiva ou negativamente) pode gerar volatilidade e alterar o prêmio de risco.  

Política Fiscal Brasil Desvalorização ou Valorização Depende da gestão da dívida. Sinais de expansão de gastos públicos causam aversão ao risco, enquanto o anúncio de ajuste fiscal pode fortalecer a moeda.  

Decisão do Fed (EUA) Desvalorização ou Valorização Fluxo de capital e atratividade. Uma postura hawkish (juros altos) faz o Real perder valor, enquanto uma postura dovish (cortes de juros) pode favorecer a moeda brasileira.  

 

4.3. Cenários Alternativos para a Próxima Semana

 

A combinação dos fatores de risco pode levar a diferentes desfechos para o câmbio na próxima semana.

  • Cenário Base (Neutro-Pessimista): O julgamento do ex-presidente se estende sem um desfecho claro, e a incerteza política persiste. Ao mesmo tempo, dados econômicos nos EUA permanecem robustos, levando o Fed a adiar qualquer sinalização de corte de juros. Neste cenário, o Real opera em patamar elevado, com flutuações, sem uma tendência clara de valorização.
  • Cenário Otimista: Um desfecho inesperadamente claro do julgamento acalma o mercado, e a percepção de risco institucional diminui. Paralelamente, notícias de emprego nos EUA indicam desaceleração econômica, abrindo caminho para o Fed adotar uma postura mais flexível. O Real ganha força e opera em um patamar inferior, recuperando parte das perdas recentes.
  • Cenário Pessimista: O julgamento gera um alto nível de tensão política, com a polarização se acirrando e com a mídia internacional destacando a possibilidade de sanções diplomáticas. Em paralelo, dados robustos da economia americana levam o Fed a manter uma postura agressiva, frustrando as expectativas de corte de juros. Neste cenário, o Real sofre uma forte desvalorização, podendo atingir patamares ainda mais altos.

 

5. Conclusão: Uma Década de Cautela em um Mar de Incertezas

 

A análise da performance do Real brasileiro demonstra que a moeda é um barômetro sensível da complexa interação entre política, economia e geopolítica. O bom começo de 2025 se esvaiu diante da piora de fundamentos macroeconômicos domésticos e da persistência de incertezas. A dinâmica do Real é um reflexo direto da política fiscal expansionista do governo, da política monetária do Fed, e agora, de um novo e poderoso fator: o risco político e geopolítico do julgamento de Bolsonaro.  

O caso em questão não é um mero evento político isolado; ele é um ponto de convergência de múltiplos riscos que se manifestam no mercado de câmbio. O fato de que a investigação sobre o ex-presidente envolve acusações de ter recebido valores em câmbio e alegações de uso indevido de informações privilegiadas (insider trading) no mercado de câmbio sugere que o próprio objeto da disputa política está intrinsecamente ligado à dinâmica da moeda. Isso reforça a ideia de que a política não é um fator externo que  

afeta a economia, mas sim um motor primário da volatilidade cambial, onde o valor do Real se torna um dos elementos da disputa.

Para o investidor e o analista, a palavra de ordem é cautela. A volatilidade do câmbio é a norma, não a exceção, e a exposição a ativos brasileiros deve considerar o prêmio de risco adicional gerado pela instabilidade política. O monitoramento deve se estender para além dos indicadores econômicos tradicionais, incorporando de forma crucial o noticiário político e diplomático, que se tornou um driver fundamental da cotação. A fusão entre os domínios político, jurídico e financeiro na economia brasileira atual exige uma abordagem estratégica que reconheça a interdependência desses fatores para navegar no cenário de incertezas.

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