O mercado da soja, que por anos foi sinônimo de estabilidade e rentabilidade para o produtor brasileiro, especialmente em estados como Mato Grosso, vive agora um momento de incerteza. A combinação de estoques globais elevados e uma demanda chinesa mais contida tem pressionado os preços da oleaginosa, exigindo cautela e estratégia por parte dos agricultores.
Estoques globais em alta: o peso da abundância
De acordo com o relatório mais recente da Hedgepoint Global Markets, os estoques mundiais de soja seguem em trajetória de crescimento. Só na China, maior importadora global, os estoques subiram de 43,3 milhões de toneladas em 2023/24 para 46 milhões em 2024/25. Esse volume elevado reduz a urgência de novas compras e, consequentemente, o apetite por importações no curto prazo.
Nos Estados Unidos, outro grande player do mercado, o Departamento de Agricultura (USDA) também apontou estoques finais acima do esperado, o que contribui para um cenário de oferta abundante e preços pressionados.
China desacelera: menos compras, mais cautela
A demanda chinesa, que historicamente impulsionou o agronegócio brasileiro, tem mostrado sinais de desaceleração. Além dos estoques elevados, fatores como crescimento econômico mais lento, políticas de autossuficiência alimentar e substituição parcial do farelo de soja na ração animal têm reduzido o ritmo das importações.
Embora o Brasil continue sendo o principal fornecedor da China, a previsibilidade das compras diminuiu. Isso afeta diretamente a comercialização da safra 2024/25, com muitos produtores segurando a venda à espera de melhores cotações.
O produtor no centro da tempestade
Para o agricultor brasileiro, especialmente no Centro-Oeste, o momento exige mais do que técnica: exige gestão de risco e pragmatismo. Como alerta o analista Fernando Berardo, “não dá para esperar o dólar a R$ 6 e Chicago disparando. É preciso fazer média e garantir a cobertura dos custos”.
Com os custos de produção ainda elevados — fertilizantes, defensivos e juros —, a margem de lucro está mais apertada. A recomendação dos especialistas é clara: acompanhar o câmbio, os relatórios do USDA e os movimentos da Bolsa de Chicago, além de buscar alternativas de comercialização, como barter e contratos futuros.
E o que vem pela frente?
Apesar do cenário desafiador, há espaço para otimismo moderado. Tensões comerciais entre Estados Unidos e China podem abrir novas janelas para o Brasil, e a qualidade da soja brasileira segue sendo um diferencial competitivo. No entanto, o produtor precisa estar preparado para um mercado mais volátil e menos previsível.
A soja, que já foi sinônimo de tranquilidade no campo, agora exige olhos atentos, decisões calculadas e nervos firmes. O jogo mudou — e quem quiser continuar colhendo bons frutos, vai precisar jogar com inteligência.