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Indonésia: A Nova Fronteira da Carne Bovina Brasileira

A Indonésia desponta no horizonte do agronegócio brasileiro não apenas como mais um importador, mas como uma peça-chave na estratégia de diversificação geopolítica. Com a maior população muçulmana do mundo e uma classe média em rápida expansão, o arquipélago asiático está sendo chamado por analistas de “O Novo Mundo” para a proteína vermelha, reduzindo a “China-dependência” e desafiando a hegemonia da Austrália na região.

Abaixo, detalhamos os dados, a logística, a origem do gado e os grandes beneficiários desse movimento.


1. O Contexto e os Dados de Referência

A abertura do mercado indonésio é recente e estratégica. Historicamente, a Indonésia dependia fortemente da Austrália para o fornecimento de gado vivo e carne in natura. No entanto, problemas climáticos e de rebanho na Austrália, somados ao preço competitivo do boi brasileiro, abriram essa janela de oportunidade.

  • Potencial de Consumo: A Indonésia possui cerca de 275 milhões de habitantes. O consumo per capita de carne bovina ainda é baixo (cerca de 2,5 kg/ano), o que indica um potencial de crescimento explosivo conforme a renda aumenta.

  • Abertura Comercial: Em 2023 e 2024, a Indonésia ampliou significativamente as cotas de importação para o Brasil.

    • Dado Chave: Recentemente, foi autorizada a importação de 100 mil cabeças de gado vivo do Brasil, além da habilitação de dezenas de novas plantas frigoríficas para exportação de carne processada.

  • O Fator Halal: Sendo a maior nação muçulmana do planeta, a Indonésia exige certificação Halal rigorosa. O Brasil, já sendo o maior exportador de proteína Halal do mundo (frango e bovino), possui o know-how necessário para atender a essa demanda imediatamente.


2. Possibilidades e Estratégia de Mercado

A entrada na Indonésia não é um evento isolado, mas uma “cabeça de ponte” para o Sudeste Asiático.

  • Competitividade de Preço: O “Boi China” (animal jovem, até 30 meses) criou um padrão de qualidade no Brasil. O boi para a Indonésia segue requisitos sanitários rígidos, mas o Brasil consegue entregar esse produto a um custo (CIF) muito inferior ao da Austrália ou dos EUA.

  • Mix de Produtos: A Indonésia compra tanto gado em pé (live cattle) para engorda e abate local (gerando empregos lá, o que agrada o governo indonésio) quanto carne congelada (cortes secundários e miúdos), ajudando a escoar partes do boi que têm menor valor na Europa.

  • Segurança Alimentar: O governo indonésio vê no Brasil um parceiro para garantir a segurança alimentar de sua população, fugindo da volatilidade de preços de fornecedores mais próximos.


3. De onde sairá esse gado? (A Geografia da Exportação)

Esta é a parte crucial da logística. Nem todo o Brasil exportará para a Indonésia, especialmente no segmento de gado vivo.

O Protagonismo do Pará (Norte do Brasil)

A maior parte do gado vivo destinado à Indonésia sairá do estado do Pará.

  1. Logística Portuária: O Porto de Vila do Conde (Barcarena – PA) é o principal hub de exportação de gado vivo do Brasil. Sua posição geográfica, mais próxima do Canal do Panamá e da rota para a Ásia (via norte), reduz o tempo de viagem em comparação aos portos do Sul/Sudeste.

  2. Disponibilidade de Animais: O Pará possui um rebanho gigantesco e pastagens que permitem a criação extensiva a baixo custo. A região é especializada na criação de animais rústicos (Nelore e cruzamento industrial) que suportam bem a longa viagem marítima.

  3. Estações de Pré-Embarque (EPEs): O estado já possui infraestrutura consolidada de EPEs, onde o gado fica em quarentena para cumprir os protocolos sanitários exigidos pela Indonésia antes do embarque.

Nota: Para a carne congelada/processada, a origem é mais difusa, abrangendo Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e Rondônia, dependendo de quais plantas frigoríficas obtiveram a habilitação específica da agência sanitária indonésia.


4. Quem será beneficiado?

A abertura desse mercado gera uma reação em cadeia na economia, beneficiando players específicos:

A. Indústria Frigorífica (Big Players)

  • Minerva Foods: É a principal beneficiada. A Minerva é líder absoluta na exportação de gado vivo na América do Sul e possui uma divisão focada e especializada em mercados Halal. A abertura da Indonésia encaixa perfeitamente no modelo de negócios da empresa.

  • JBS e Marfrig: Beneficiam-se na exportação de carne processada e cortes, diversificando o destino e não dependendo apenas das flutuações de compra da China.

B. O Pecuarista do Norte (Ciclo de Cria e Recria)

  • Com a China comprando menos ou pressionando preços, o pecuarista do Pará e do norte do Tocantins ganha uma nova via de escoamento.

  • A exportação de gado vivo ajuda a enxugar a oferta interna. Ao retirar 100 mil cabeças do mercado doméstico para enviar à Indonésia, reduz-se a oferta local, o que tende a sustentar ou elevar o preço da arroba para os produtores da região.

C. Empresas de Logística e Nutrição

  • A exportação de gado vivo exige uma operação de guerra: navios currais, toneladas de ração para a viagem e medicamentos. Empresas que fornecem nutrição animal para a viagem e operadores portuários em Vila do Conde terão aumento de demanda.

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