A recente imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros pelo governo de Donald Trump, anunciada em julho de 2025, entrou em vigor e já provoca impactos significativos no agronegócio brasileiro, especialmente em estados exportadores como Mato Grosso. A região de Sorriso, conhecida como a “capital nacional do agronegócio” devido à sua liderança na produção de soja e milho, enfrenta desafios imediatos que ameaçam a competitividade e a sustentabilidade do setor. Este artigo analisa os efeitos do tarifaço, as principais dificuldades para os produtores de Sorriso e possíveis soluções para mitigar os impactos.
Efeitos do Tarifaço no Agronegócio de Mato Grosso
O Mato Grosso é um dos estados mais afetados pelo tarifaço, já que os Estados Unidos são um dos principais destinos das exportações agropecuárias brasileiras, atrás apenas da China e da União Europeia. Em 2024, o Brasil exportou cerca de US$ 40 bilhões em produtos para os EUA, com o agronegócio respondendo por uma fatia significativa, incluindo soja, milho, carne bovina e subprodutos. A tarifa de 50% torna esses produtos menos competitivos, especialmente em setores como carne, suco de laranja, café e frutas, que enfrentam dificuldades para realocar mercados.
Na região de Sorriso, o impacto é particularmente severo devido à dependência da soja e do milho, que representam a base da economia local. Embora a China seja o principal comprador da soja mato-grossense, os EUA absorvem uma parte relevante de subprodutos, como óleo de soja e farelo, além de milho. A tarifa reduz a viabilidade dessas exportações, pressionando os preços internos e aumentando o risco de estoques encalhados.
Principais Dificultades Imediatas em Sorriso
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Perda de Competitividade no Mercado Norte-Americano: A soja e o milho de Sorriso, embora majoritariamente exportados para a Ásia, têm nos EUA um mercado secundário importante. A tarifa de 50% eleva os custos, tornando os produtos brasileiros menos atraentes em comparação com concorrentes como Argentina e Canadá. Isso pode levar à suspensão de embarques e à acumulação de estoques, especialmente para subprodutos como farelo de soja.
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Pressão nos Preços Internos: Com a dificuldade de exportar para os EUA, o aumento da oferta no mercado doméstico pode derrubar os preços da soja e do milho, reduzindo a margem de lucro dos produtores. Em Sorriso, onde os custos de produção são elevados devido à dependência de insumos importados e logística, essa pressão pode comprometer a rentabilidade.
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Impacto na Cadeia Produtiva: A redução nas exportações afeta toda a cadeia do agronegócio, incluindo cooperativas, transportadoras e fornecedores de insumos em Sorriso. A suspensão de embarques pode levar a cortes de produção, férias coletivas e, em casos extremos, demissões, impactando a economia local. Estima-se que o tarifaço possa ameaçar mais de 100 mil empregos em todo o Brasil, com reflexos em regiões agrodependentes como Sorriso.
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Incerteza na Safra 2025/2026: A janela de exportação de soja e milho coincide com o início da safra em Sorriso (agosto-setembro). A indefinição tarifária já causa postergação de contratos, reduzindo a confiança dos produtores e dificultando o planejamento para a próxima safra.
Soluções para Mitigar o Problema
Apesar dos desafios, o agronegócio de Mato Grosso, especialmente em Sorriso, tem mostrado resiliência, com estratégias para minimizar os impactos do tarifaço. Algumas medidas incluem:
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Diversificação de Mercados: Os produtores de Sorriso podem intensificar esforços para redirecionar exportações para mercados alternativos, como China, União Europeia, Índia e países do Oriente Médio. A China, principal destino da soja brasileira, já absorve volumes crescentes, e acordos comerciais com outros países podem ser ampliados. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) destaca que a realocação rápida de mercados é essencial para evitar perdas de até US$ 9 bilhões nas exportações totais.
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Negociações Diplomáticas: O governo brasileiro, em articulação com o setor produtivo, deve buscar diálogo com os EUA para negociar isenções ou reduções tarifárias, especialmente para produtos estratégicos como a soja. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) sugere retomar negociações para evitar barreiras ao abastecimento global.
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Fortalecimento do Mercado Interno: Investir em cadeias de valor locais, como a produção de biocombustíveis a partir de soja e milho, pode absorver parte da oferta excedente. Incentivos fiscais e programas de apoio do governo federal, como desonerações, podem ajudar a estabilizar preços e manter a competitividade.
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Apoio Logístico e Infraestrutura: A redução dos custos logísticos, um desafio crônico em Mato Grosso, é crucial para manter a competitividade em mercados alternativos. Investimentos em infraestrutura, como a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO), podem facilitar o escoamento da produção para portos e outros destinos.
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Apoio Técnico e Financeiro: Cooperativas agrícolas em Sorriso, como a Cooperativa Agropecuária e Industrial (Cooagri), podem oferecer suporte técnico e financeiro aos produtores, ajudando na renegociação de contratos e na busca por novos compradores. Programas de crédito rural do governo federal também são essenciais para aliviar a pressão financeira.
Conclusão
O tarifaço de Trump representa um desafio significativo para o agronegócio de Mato Grosso, com impactos diretos na região de Sorriso. A perda de competitividade nos EUA, a pressão nos preços internos e a incerteza na safra são dificuldades imediatas que exigem respostas rápidas. No entanto, a resiliência do setor, aliada a estratégias como diversificação de mercados, negociações diplomáticas e fortalecimento do mercado interno, pode mitigar os impactos. A articulação entre produtores, cooperativas e o governo será fundamental para garantir a sustentabilidade do agronegócio em Sorriso e manter sua posição como pilar da economia brasileira.
