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Clima e Tecnologia: O Desafio de Janeiro – Uma Análise Exaustiva da Previsibilidade Atmosférica na Era dos Dados

MATÉRIA DA DIREÇÃO – VQT  16 DE JANEIRO DE 2026

A Convergência Crítica entre a Física da Atmosfera e a Revolução Digital

O mês de janeiro assume, no contexto da agricultura tropical brasileira, uma posição de singularidade estratégica e risco elevado. É neste período que a fenologia das principais commodities agrícolas, notadamente a soja, cruza uma linha crítica de demanda hídrica e térmica, coincidindo com o auge da atividade convectiva atmosférica na América do Sul. O presente relatório, elaborado com o rigor de uma análise técnica aprofundada, visa desmistificar a complexa interação entre os sistemas meteorológicos que governam o “Desafio de Janeiro” e o arsenal tecnológico emergente — da Internet das Coisas (IoT) à Inteligência Artificial Generativa — que promete mitigar a incerteza climática.

A tese central deste documento postula que a imprevisibilidade das chuvas de verão não é apenas um problema meteorológico, mas um desafio de dados e resolução espacial. Enquanto os modelos globais de previsão numérica atingiram um teto de competência na escala sinótica, a agricultura de precisão exige uma granularidade que só pode ser alcançada através da fusão de sensoriamento remoto, dados on-farm e algoritmos de aprendizado de máquina. Através da análise de mais de setenta fontes técnicas, relatórios de safra e boletins científicos, dissecaremos como a “Era dos Dados” está reescrevendo os protocolos de risco no agronegócio, transformando a incerteza estocástica em probabilidade gerenciável.


1. A Anatomia do “Desafio de Janeiro”: Fenologia e Atmosfera em Rota de Colisão

1.1. O Imperativo Fenológico: A Soja no Limite

Para compreender a magnitude do desafio climático de janeiro, é imperativo primeiro analisar o sujeito biológico dessa equação: a planta de soja (Glycine max). No calendário agrícola do Centro-Oeste brasileiro, especialmente em Mato Grosso, o mês de janeiro marca preponderantemente o estágio reprodutivo da cultura, variando entre o florescimento pleno (R2) e o enchimento de grãos (R5/R6).   

Nesta fase, a fisiologia da planta opera em seu limite metabólico. A demanda por água atinge o pico para sustentar a translocação de fotoassimilados das folhas para as vagens. O estresse hídrico — definido não apenas pela falta de chuva, mas pela demanda evapotranspirativa excessiva causada pelo calor — desencadeia mecanismos de defesa imediatos, como o fechamento estomático. Se prolongado, esse estresse resulta no abortamento de flores e vagens, ou na formação de grãos com baixo peso específico, fenômeno conhecido como “grão chocho”.   

Relatórios recentes da Aprosoja Mato Grosso e da Embrapa destacam anomalias fisiológicas exacerbadas por flutuações climáticas em janeiro, como a “anomalia das vagens” e o “quebramento da haste”, distúrbios diretamente ligados ao desbalanço hídrico e térmico. O “Desafio de Janeiro”, portanto, não é uma abstração meteorológica; é uma contagem regressiva biológica onde cada dia de veranico ou de nebulosidade excessiva tem um custo direto na produtividade final.   

1.2. A Dicotomia Pluviométrica: Sistemas Estratiformes vs. Convectivos

A frustração comum entre produtores rurais em relação às previsões meteorológicas em janeiro reside na incompreensão da natureza dual da precipitação tropical. O Brasil Central vive, neste período, sob a égide de dois regimes de chuva distintos, cujas dinâmicas físicas e previsibilidade são diametralmente opostas.

1.2.1. A Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS)

A ZCAS é o principal sistema meteorológico de verão responsável por chuvas volumosas e duradouras. Trata-se de uma banda de nebulosidade estacionária, orientada no sentido Noroeste-Sudeste, que conecta a umidade da Bacia Amazônica ao Oceano Atlântico Sul.   

  • Características: Chuva estratiforme (contínua, moderada a forte), cobertura de nuvens abrangente, queda nas temperaturas máximas e duração de 3 a 8 dias.   

  • Previsibilidade: Alta. Por ser um sistema de escala sinótica (milhares de quilômetros) e dinâmica lenta, os modelos globais conseguem prever a formação da ZCAS com 5 a 7 dias de antecedência.

  • Impacto Agrícola: Benéfico para reposição hídrica profunda, mas prejudicial se persistir por mais de uma semana devido à redução da radiação solar (necessária para a fotossíntese) e encharcamento do solo, favorecendo doenças fúngicas.   

1.2.2. A Convecção Tropical Isolada (“Chuvas de Manga”)

Quando a ZCAS não está ativa, o regime muda para chuvas convectivas. Estas são governadas pela termodinâmica local: o aquecimento diurno intenso da superfície gera bolhas de ar quente que ascendem rapidamente, rompendo a inversão térmica e formando nuvens Cumulonimbus.   

  • Características: Chuva intensa, curta duração (minutos a horas), acompanhada de descargas elétricas e ventos fortes, e extremamente localizada.   

  • Previsibilidade: Baixíssima (Caótica). A localização exata de onde a primeira “bolha” de ar vai subir depende de microfatores de superfície (tipo de solo, vegetação, topografia) que os modelos de grande escala não resolvem adequadamente.

  • Impacto Agrícola: Cria o cenário de “manchas de chuva”. É comum que uma propriedade receba 50 mm enquanto a vizinha, a 5 km, permaneça seca. Este é o cerne da irregularidade que desafia o planejamento agrícola.   

1.3. O Fator Variabilidade: La Niña e o Aquecimento Global

A equação de janeiro de 2024 e 2025 foi complicada pela presença de forçantes climáticas globais. O fenômeno La Niña (resfriamento das águas do Pacífico Equatorial) historicamente altera o padrão de ventos em altitude, favorecendo chuvas no Norte/Nordeste e irregularidade no Sul e Centro-Oeste. No entanto, a resposta da atmosfera ao La Niña não é linear. Observou-se que o fenômeno, combinado com o aquecimento global (2024/2025 registrando recordes de temperatura), intensificou a amplitude dos extremos. O INMET e outros órgãos de monitoramento alertaram para a ocorrência de “ondas de calor” sobrepostas a períodos de seca relativa em janeiro, exacerbando a evapotranspiração.   

Em Mato Grosso, essa interação resultou em um padrão onde, embora os volumes mensais pudessem se aproximar da média, a distribuição temporal foi desastrosa. Períodos de 15 a 20 dias sem chuva significativa em municípios como Sorriso e Sinop forçaram replantios e comprometeram o potencial produtivo, evidenciando que a média climatológica esconde a realidade letal da variância diária.   


2. O Abismo da Resolução: As Limitações da Modelagem Tradicional

Para desmistificar por que a previsão “erra”, é necessário dissecar a tecnologia dos Modelos Numéricos de Previsão do Tempo (NWP). A falha percebida pelo agricultor é, na verdade, uma limitação intrínseca da física computacional aplicada.

2.1. O Problema da Grade: Modelos Globais vs. Realidade Local

A maioria das previsões consumidas via aplicativos gratuitos (em smartphones) deriva de modelos globais como o GFS (Global Forecast System, dos EUA) ou o ECMWF (European Centre for Medium-Range Weather Forecasts). Estes modelos dividem a atmosfera da Terra em uma grade tridimensional de células.   

  • Resolução Espacial: Um modelo global típico opera com uma resolução horizontal de cerca de 25 km a 50 km (embora o ECMWF tenha versões de maior resolução, os dados públicos são frequentemente degradados). Isso significa que o modelo calcula uma única média de temperatura, umidade e vento para uma área de 625 km².   

  • A “Cegueira” Convectiva: Uma tempestade de verão típica tem um diâmetro de 5 km a 10 km. Matematicamente, esse fenômeno é “sub-grade” (menor que o pixel do modelo). O modelo não consegue “ver” a tempestade explicitamente; ele precisa estimá-la através de equações de parametrização.   

A consequência prática é que o modelo global é excelente para prever frentes frias e ZCAS (que cobrem milhares de km), mas falha miseravelmente em prever se vai chover no talhão 3 da Fazenda Santa Maria. Ele pode indicar “instabilidade na região”, mas a especificidade espacial necessária para a agricultura de precisão está além de sua capacidade física.   

2.2. A Escassez de Dados Observacionais e a Assimilação

Um modelo de previsão é tão bom quanto os dados que o alimentam (“garbage in, garbage out”). O Brasil enfrenta um déficit histórico de monitoramento observacional em comparação com a Europa ou os EUA.   

  • Vazio de Radares: O radar meteorológico é a ferramenta suprema para monitoramento de chuvas em tempo real (nowcasting). Ele detecta a presença de hidrometeoros (gotas de chuva, granizo) num raio de 200-400 km. No entanto, a cobertura de radares no interior do Brasil, especialmente no eixo agrícola Mato Grosso-Matopiba, é fragmentada e insuficiente. Sinop, por exemplo, muitas vezes depende de estimativas de satélite devido à distância dos radares operacionais mais próximos ou à intermitência dos equipamentos.   

  • Dependência de Satélites: Na ausência de radares e pluviômetros densos, os meteorologistas dependem de satélites geoestacionários (como a série GOES). Embora avançados, os satélites medem a temperatura do topo da nuvem, inferindo a chuva a partir da frieza desse topo (nuvens mais altas e frias geralmente indicam tempestades). Esta é uma medida indireta que pode apresentar erros significativos em nuvens quentes ou estratiformes baixas.   

2.3. Determinismo vs. Probabilidade: Uma Mudança Cultural

Tradicionalmente, a previsão do tempo é comunicada de forma determinística: “Amanhã choverá 20 mm”. Essa abordagem binária cria uma falsa sensação de certeza. A atmosfera é um sistema caótico, onde pequenas variações nas condições iniciais podem levar a resultados divergentes (Efeito Borboleta).   

A ciência moderna defende a Previsão Probabilística (Ensemble Forecasting). Em vez de rodar o modelo uma vez, os supercomputadores (como o Tupã do INMET/CPTEC) rodam o modelo 50 vezes, alterando ligeiramente os dados iniciais. O resultado é um leque de cenários: “Há 70% de chance de chuva entre 10mm e 30mm, e 20% de chance de seca”. Para o “Desafio de Janeiro”, onde o risco é alto, essa abordagem é muito mais valiosa para a tomada de decisão agronômica, embora exija uma mudança cultural na interpretação dos dados pelo produtor.   


3. A Era dos Dados: O Agro 4.0 e a Revolução do Monitoramento “On-Farm”

Diante das limitações dos modelos públicos e da rede oficial, o agronegócio iniciou um movimento de descentralização massiva da coleta de dados. A “Era dos Dados” no campo é caracterizada pela migração da dependência passiva de previsões regionais para a geração ativa de inteligência hiper-local.

3.1. Internet das Coisas (IoT) e a “Verdade Terrestre”

A proliferação de dispositivos IoT (Internet of Things) permitiu que fazendas se tornassem suas próprias estações meteorológicas. Empresas como AgrosmartMetos, e outras agtechs estão implantando redes densas de sensores conectados via LoRaWAN, 4G ou satélite diretamente nas lavouras.   

Tabela 1: Comparativo de Monitoramento – Estação Oficial vs. Estação On-Farm

Característica Estação Oficial (INMET/Aeroportos) Estação On-Farm (IoT)
Localização Geralmente em áreas urbanas ou aeroportos, distantes das lavouras. Dentro do talhão, capturando o microclima específico.
Densidade Baixa (uma a cada 100-200 km em regiões remotas). Alta (pode haver múltiplas por fazenda).
Parâmetros Padrão (Temp, Umidade, Vento, Chuva). Personalizáveis (Molhamento foliar, umidade do solo em 3 profundidades, radiação PAR).
Latência Dados horários ou diários. Tempo real (minuto a minuto).
Uso Principal Climatologia e validação de modelos sinóticos. Decisão operacional (pulverização, irrigação, colheita).

Essas estações “On-Farm” fornecem a chamada “Verdade Terrestre” (Ground Truth). Dados como o molhamento foliar são cruciais para modelos epidemiológicos de doenças. Por exemplo, a ferrugem asiática da soja precisa de um número específico de horas de molhamento contínuo para esporular. Uma estação IoT pode alertar o produtor exatamente quando esse limiar é atingido, permitindo uma aplicação de fungicida cirúrgica, economizando insumos e protegendo a safra.   

3.2. Crowdsourcing e Redes Colaborativas

Uma inovação significativa é a formação de “redes colaborativas” de dados. Projetos liderados por cooperativas e associações (como a CIC Caxias e iniciativas em MT) conectam centenas de estações privadas em uma única rede de monitoramento.   

Este crowdsourcing de dados meteorológicos cria uma malha de alta resolução que nenhum governo conseguiria financiar isoladamente. Quando vizinhos compartilham dados, preenche-se a lacuna espacial. Se a estação da Fazenda A falhar, a da Fazenda B, a 3 km, serve como backup. Além disso, esses dados são frequentemente compartilhados com empresas de meteorologia para a calibração de modelos (processo de Data Assimilation), melhorando a previsão para toda a comunidade.   

3.3. Plataformas de Integração: Do Dado ao Insight

O dado bruto de chuva é inútil sem contexto. O avanço real da Era dos Dados está nas plataformas que digerem essas informações. Softwares como Climate FieldViewxarvio, e sistemas proprietários de startups integram os dados das estações meteorológicas com mapas de solo, imagens de satélite (NDVI) e histórico de produtividade.   

Essas plataformas transformam “choveu 30 mm” em “o solo está com 80% da capacidade de campo, a janela de plantio do milho está aberta pelos próximos 3 dias, e o risco de tombamento da soja é médio”. Essa inteligência contextual é o que permite ao produtor navegar a irregularidade de janeiro com agilidade.   


4. Inteligência Artificial Generativa e Preditiva: O Novo Oráculo

Se o IoT resolveu o problema da coleta de dados, a Inteligência Artificial (IA) está resolvendo o problema do processamento e da previsão. A meteorologia está passando por uma mudança de paradigma, saindo da simulação física pura para a emulação baseada em dados.

4.1. GraphCast, Pangu-Weather e a Ruptura dos Modelos Físicos

Até 2023, a previsão do tempo era domínio exclusivo de supercomputadores resolvendo equações diferenciais parciais (Navier-Stokes) que descrevem o movimento dos fluidos. Isso é caro e lento. Recentemente, gigantes da tecnologia lançaram modelos baseados em Deep Learning (Aprendizado Profundo), como o GraphCast (Google DeepMind) e o Pangu-Weather (Huawei).   

  • Mecanismo: Esses modelos não “sabem” física. Eles foram treinados com 40 anos de dados históricos de reanálise (ERA5). Eles aprenderam, por força bruta estatística, como a atmosfera se comporta. “Quando a pressão cai aqui e o vento sopra ali, 6 horas depois chove lá”.

  • Vantagem: Eles são milhares de vezes mais rápidos que os modelos numéricos tradicionais. Podem rodar em minutos o que levaria horas no supercomputador do INMET. Além disso, demonstraram precisão superior em certas métricas, incluindo a previsão de trajetórias de furacões e eventos extremos.

  • Limitação Tropical: Um desafio crítico, apontado por pesquisadores brasileiros, é que esses modelos foram treinados predominantemente com dados do Hemisfério Norte, onde a rede de observação é densa. A física tropical (convecção) é menos representada, o que pode introduzir vieses nas previsões para o Brasil. O “ajuste fino” (fine-tuning) desses modelos com dados locais brasileiros é a próxima fronteira de pesquisa.   

4.2. Startups de Inteligência Climática e a Hiper-Localização

O ecossistema de AgTechs no Brasil está utilizando IA para fazer o downscaling (refinamento de escala) das previsões globais.

  • Ignitia: Startup com foco em regiões tropicais, desenvolveu algoritmos específicos para prever a convecção tropical, prometendo precisão superior aos modelos globais para áreas pequenas (8 mil hectares). Eles utilizam IA para entender os padrões de microclima que os modelos globais ignoram.   

  • TempoCampo (ESALQ/USP): Focada na agrometeorologia, utiliza modelagem para calcular o Coeficiente de Produtividade Climática (CPC). O sistema cruza a previsão do tempo com modelos ecofisiológicos da cana, soja e milho, projetando não apenas a chuva, mas a quebra de safra esperada. Isso é vital para usinas e grandes grupos agrícolas anteciparem receitas e logística.   

  • Google Flood Hub: Em parceria com o Serviço Geológico do Brasil, o Google utiliza IA para prever inundações ribeirinhas, processando dados de elevação e hidrologia para emitir alertas visuais de áreas inundáveis. Embora focado em proteção civil, a tecnologia tem imenso potencial para áreas de várzea agrícola.   

4.3. O Futuro: Gêmeos Digitais da Lavoura

A convergência de IoT e IA caminha para a criação de “Gêmeos Digitais” (Digital Twins) das fazendas. Um modelo virtual que simula, em tempo real, o estado biológico e físico da propriedade. O produtor poderá perguntar ao sistema: “O que acontece se eu plantar o milho hoje, considerando a previsão de La Niña para fevereiro?” e o sistema rodará milhares de cenários probabilísticos para oferecer a melhor recomendação de manejo.


5. Impactos Econômicos, Logísticos e Sociais

A capacidade de prever e monitorar o clima em janeiro tem ramificações que vão muito além da porteira da fazenda.

5.1. Logística e Infraestrutura: O Custo do Barro

Janeiro é o mês onde a chuva, quando excessiva (ZCAS), torna-se inimiga da logística. O Brasil ainda depende fortemente do modal rodoviário, e grande parte da malha vicinal que escoa a soja é não pavimentada.

  • Derretimento Logístico: O calor extremo e as chuvas intensas degradam o asfalto e as estradas de terra. O “custo Brasil” aumenta quando caminhões ficam atolados por dias, elevando o frete e causando perdas qualitativas na carga (grãos fermentados/ardidos por umidade excessiva).   

  • Previsão para Estradas: Sistemas de IA estão sendo usados por concessionárias e transportadoras para prever a “trafegabilidade” das rotas, desviando frotas de áreas com previsão de tempestades severas.

5.2. O Mercado de Seguros e Crédito: Parametrização

A incerteza climática tornou o seguro agrícola tradicional caro e burocrático. A Era dos Dados impulsionou o Seguro Paramétrico.

  • Como funciona: Não há perito no campo. A apólice é baseada em um índice (ex: “se chover menos de 100 mm em janeiro na estação meteorológica certificada ou no dado de satélite da grade X, o pagamento é automático”).

  • Vantagem: Elimina a subjetividade e a fraude, agiliza o pagamento e reduz o prêmio. Isso só é possível graças à confiança nos dados de satélite e estações IoT auditáveis.   

5.3. Segurança Alimentar e Preços

Em última análise, a precisão na gestão do “Desafio de Janeiro” impacta o preço dos alimentos. A quebra da safra de soja e milho no Brasil afeta as cotações globais em Chicago. Ferramentas como o TempoCampo ajudam o mercado a precificar a safra com meses de antecedência, reduzindo a volatilidade especulativa e permitindo que indústrias de alimentos façam hedge (proteção de preço) de forma mais eficiente.   


6. Conclusão e Recomendações Estratégicas

A análise exaustiva dos dados e tecnologias disponíveis aponta para uma conclusão inevitável: a instabilidade climática de janeiro é uma constante da geografia tropical, exacerbada pelas mudanças climáticas, mas a vulnerabilidade a ela é opcional.

A “desmistificação” do clima revela que não existe uma “bala de prata”. O modelo perfeito de previsão de chuvas convectivas ainda não existe e talvez nunca exista devido à natureza caótica da atmosfera. No entanto, a Gestão de Risco Baseada em Dados é a nova fronteira de competência do produtor rural.

Recomendações para o Produtor na Era dos Dados:

  1. Adote a Redundância: Não dependa de uma única fonte de previsão. Utilize agregadores que comparam modelos (GFS vs. ECMWF vs. ICON). A divergência entre modelos é o melhor indicador de incerteza.

  2. Invista em Micro-Monitoramento: A instalação de pluviômetros digitais e sensores de solo é mandatória para propriedades de médio e grande porte. O custo do equipamento é ínfimo comparado ao custo de uma aplicação errada de fungicida ou de um plantio perdido.

  3. Migre para o Pensamento Probabilístico: Abandone a pergunta “Vai chover?” e adote “Qual a probabilidade de chover acima de 10 mm?”. Trabalhe com janelas de risco e não com datas fixas.

  4. Integração Tecnológica: Utilize plataformas que centralizem os dados. O valor não está no dado disperso, mas na correlação entre clima, solo e planta.

  5. Participe de Redes Colaborativas: Compartilhar dados com vizinhos e cooperativas fortalece a inteligência regional e atrai melhores serviços de previsão para a localidade.

O “Desafio de Janeiro” continuará testando os limites da agricultura brasileira, mas armados com a resolução do IoT e a predição da IA, os produtores estão, pela primeira vez, equiparados à tempestade.


Anexo Técnico: Comparativo de Ferramentas de Inteligência Climática

Abaixo, apresentamos uma análise comparativa das principais tecnologias discutidas, categorizadas por sua função na cadeia de valor da informação climática.

Categoria Tecnológica Exemplos Função Primária Vantagem Estratégica Limitação Técnica
Modelos Globais (NWP) GFS (NOAA), ECMWF Previsão de média/longa escala (7-15 dias). Visão macro de frentes frias e ZCAS. Gratuito ou baixo custo. Resolução grosseira (25-50km). “Cego” para chuvas locais isoladas.
Modelos Regionais WRF, COSMO, Eta (INMET) Refinamento da previsão para áreas específicas. Melhor resolução topográfica. Captura efeitos de brisa e relevo. Alto custo computacional. Depende das condições de contorno dos modelos globais.
Satélites Meteorológicos GOES-16 (NOAA/INPE) Monitoramento visual e estimativa de chuva. Cobertura total do território (inclusive vazios de radar). Alta frequência (10-15 min). Estimativa indireta (topo de nuvem). Menor precisão volumétrica que radares.
Radares Meteorológicos Redes SIVAM/CEMADEN Monitoramento de chuva em tempo real (Nowcasting). Medição direta de hidrometeoros. Alta precisão espacial e temporal. Cobertura geográfica limitada no Brasil. “Sombra” orográfica. Custo de implantação.
Estações IoT (On-Farm) Metos, Agrosmart, Davis Coleta de dados observados na superfície (Ground Truth). Precisão absoluta do ponto. Monitoramento de microclima (molhamento, solo). Dado pontual (não representa áreas vastas sem rede densa). Manutenção necessária.
Inteligência Artificial GraphCast, Pangu, Ignitia Previsão baseada em dados históricos e padrões não-lineares. Velocidade de processamento. Capacidade de aprender padrões locais complexos (Downscaling). “Caixa preta” (difícil explicar o porquê da previsão). Dependência da qualidade dos dados de treino.
Plataformas de Gestão Climate FieldView, xarvio, TempoCampo Integração e análise de dados para tomada de decisão. Contextualização agronômica (transforma clima em ação). Custo de assinatura. Curva de aprendizado para o usuário.

Aqui estão as fontes consultadas para a elaboração do material, organizadas por temas:

Fisiologia da Soja e Clima de Janeiro (ZCAS vs. Convecção)

  • Aprosoja MT: Alertas sobre atraso de chuvas, safra de soja e desafios da colheita.

    Canal Rural: Impacto da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) nas lavouras.

    Notícias Agrícolas/Embrapa: Anomalia das vagens e enchimento de grãos.

    INMET (Instituto Nacional de Meteorologia): Monitoramento de ZCAS e previsões de verão [], [],, [], []
  • .SBFísica / Climatempo / Alta Montanha: Física das tempestades, raios e por que a previsão erra no verão
  • .Estudos Acadêmicos: Impactos da ZCAS e eventos extremos.

Limitações dos Modelos Meteorológicos Tradicionais

  • CPTEC/INPE: Avaliação de modelos regionais (WRF, BRAMS, ETA) e meteorologia agrícola, [], [], [], [], [].

  • DGADR: Diferença entre previsão determinística e probabilística.

  • Scielo/RBMet/Fórum Futuro: Resolução espacial de modelos globais vs. regionais e assimilação de dados, [, [,,, [], [],.

Tecnologia de Monitoramento (IoT e Radares)

  • Metos Brasil: Manual da estação meteorológica e mitos sobre monitoramento.

    Agrosmart/Aegro/On Farm Bio: Inteligência climática na prática e IoT na agricultura.

    Cemaden/Clima e Radar: Rede de radares meteorológicos e cobertura em Sinop/MT.

    Letras Ambientais: Futuro dos radares orbitais para agricultura.

    Redes Colaborativas: Projetos da CIC Caxias e Cocamar [],, [].

Inteligência Artificial e Novas Tecnologias de Previsão

  • Revista Pesquisa FAPESP/CNN Brasil: Uso de aprendizado de máquina (IA) na previsão do tempo.

    AgFeed: Startup Ignitia e previsão para climas tropicais.

    TempoCampo (ESALQ/USP): Sistema de previsão de produtividade climática, [], [], [].

    Google/SGB: Sistema de previsão de inundações com IA (Flood Hub).

    Plataformas Digitais: Climate FieldView e xarvio.

    IMPA: Modelos de IA para previsão de chuvas globais [.

Impactos Gerais e Logística

  • Revista Cobertura: Calor extremo e desafios logísticos em janeiro.

  • ONS: Níveis de reservatórios e previsão de chuvas.

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