Uma “tempestade perfeita” de volume recorde de fim de ano, falta crônica de contêineres e infraestrutura saturada trava o principal escoadouro do país. Exportadores acumulam prejuízos milionários com multas por atraso e alertam para o risco de “apagão logístico” com a chegada da soja em janeiro.
POR SÃO PAULO, AGROADVANCE NEWS | 09 DE DEZEMBRO DE 2025
O complexo portuário de Santos (SP), responsável por escoar a maior parte da riqueza do agronegócio brasileiro, entrou em dezembro de 2025 em estado de alerta máximo. O que já era um gargalo conhecido transformou-se, nas últimas semanas, em um verdadeiro nó logístico que ameaça a rentabilidade das exportações neste fechamento de ano.
Segundo dados obtidos junto a agências marítimas e associações de exportadores, a fila de espera (lineup) para navios que aguardam para atracar e carregar açúcar (granel) e café (contêineres) ultrapassou a barreira crítica de 40 dias em alguns terminais. Na prática, isso significa que um navio que chega à barra de Santos hoje só deve começar a operar na segunda quinzena de janeiro de 2026.
A situação é descrita por operadores como a “pior crise de fim de ano da última década”.
O colapso atual não tem uma causa única, mas é o resultado da soma de três fatores de pressão que atingiram seu ápice simultaneamente neste mês de dezembro:
1. A Avalanche do Açúcar: O Brasil colheu uma safra de cana monumental em 2025, e o mundo está sedento por açúcar devido a quebras de safra na Ásia. As usinas estão correndo para embarcar o máximo possível antes que as chuvas de verão intensifiquem e paralisem as operações de embarque a granel (os porões dos navios não podem ser abertos na chuva). O volume de açúcar que chega de trem e caminhão é maior do que a capacidade dos terminais de “engolir” e colocar nos navios.
2. O Drama dos Contêineres para o Café: Enquanto o açúcar trava os berços de granéis, o café vive seu próprio drama nos terminais de contêineres. Apesar da safra de arábica menor em 2025, os preços internacionais estão altíssimos, incentivando a exportação rápida. No entanto, a escassez global de contêineres “food grade” (aptos para alimentos) persiste. Armadores (donos dos navios) têm preferido rotas mais lucrativas na Ásia e EUA, deixando o Brasil desabastecido de caixas vazias. O resultado são pátios lotados de sacas de café esperando por um contêiner que não chega, e contêineres cheios esperando por um navio que está atrasado na fila.
3. O Efeito “Fim de Ano”: Historicamente, dezembro é um mês de corrida contra o tempo para fechar contratos anuais e evitar os recessos operacionais de Natal e Ano Novo. A pressão de toda a cadeia produtiva para “zerar os pátios” antes da virada do ano sobrecarregou o sistema viário (Anchieta-Imigrantes e ferrovias) que dá acesso ao porto.
Para o exportador, o tempo parado em Santos custa muito caro. O principal vilão tem nome: Demurrage.
A demurrage é a multa cobrada pelo armador quando o navio fica parado além do tempo contratado para o embarque. Com filas de 40 dias, essas multas estão na casa das dezenas de milhares de dólares por dia para cada navio parado.
“Estamos vendo contratos onde o lucro da operação está sendo corroído inteiramente pelos custos logísticos extras. Tem carga sendo ‘rolada’ (transferida para o próximo navio) três, quatro vezes. O café está vendido, o preço é ótimo, mas não conseguimos entregar. É desesperador”, relata um diretor de uma grande trading de café de Minas Gerais, que pediu anonimato.
O Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café) já estima prejuízos na casa dos milhões de reais apenas com custos adicionais de armazenagem nos retroportos, já que a carga não pode entrar no porto se não houver previsão de embarque.
A maior preocupação do setor, no entanto, não é apenas o fechamento de 2025, mas o início de 2026.
A colheita da soja começará a ganhar volume em Mato Grosso e Paraná a partir de meados de janeiro. Se o Porto de Santos ainda estiver tentando “limpar” a fila de açúcar e café de 2025 quando a avalanche de grãos da nova safra começar a descer para o litoral, o cenário pode evoluir de um gargalo grave para um “apagão logístico”.
“Se não conseguirmos dar vazão a esses navios de açúcar nas próximas semanas, o encontro da safra velha de cana com a safra nova de soja em fevereiro será catastrófico para a logística nacional”, alerta um analista de infraestrutura da consultoria Safras & Mercado.
Enquanto isso, na rada de Santos, dezenas de navios gigantescos aguardam no horizonte, formando uma “cidade flutuante” que é o retrato da pujança da produção brasileira, mas também da sua maior fragilidade estrutural.