O cultivo de café em Mato Grosso tem se destacado no cenário do agronegócio brasileiro, impulsionado por condições climáticas favoráveis, avanços tecnológicos e a busca por diversificação agrícola. Embora não seja um estado tradicional na cafeicultura como Minas Gerais ou Espírito Santo, Mato Grosso apresenta crescimento expressivo, especialmente nas regiões norte e noroeste, como Colniza, Alta Floresta e Tangará da Serra. Em 2025, o estado consolida sua posição como um novo polo cafeeiro, com aumento de produção, adoção de tecnologias e foco em sustentabilidade.
1. Plantio: Adaptação e Tecnologia
Variedades e Solo
As principais variedades cultivadas em Mato Grosso são o Coffea arabica (arábica), predominante em áreas de altitude moderada (400 a 600 metros), e o Coffea canephora (conilon/robusta), em menor escala, adaptado a climas mais quentes. Regiões como Colniza e Alta Floresta, com clima tropical úmido e estações bem definidas, oferecem condições ideais para o cultivo de arábica, enquanto Sinop e outras áreas de menor altitude favorecem o conilon. O solo argiloso, rico em matéria orgânica, aliado a práticas de correção com calcário, tem potencializado a produtividade.
Técnicas de Cultivo
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Adensamento: O plantio com espaçamento reduzido (3m x 0,5m) permite maior número de plantas por hectare, elevando a produção em pequenas áreas.
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Irrigação: A adoção de sistemas de irrigação por gotejamento, apoiada pelo programa MT Produtivo Café, garante estabilidade em períodos de seca, comuns no segundo semestre.
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Manejo Integrado de Pragas (MIP): O controle biológico do bicho-mineiro (Leucoptera coffeella) e outras pragas reduz o uso de defensivos químicos, alinhando-se às práticas sustentáveis.
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Clones de Alta Produtividade: Desde 2021, a Empresa Mato-Grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer), em parceria com a Embrapa Rondônia, avalia 50 genótipos de café robusta em Tangará da Serra e Sinop, identificando clones com alto desempenho agronômico e sensorial.
Dados de Produção
Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Mato Grosso produziu 270,8 mil sacas de café na safra 2024, um aumento de 4% em relação a 2023 e 123% em comparação com 2019, quando o programa MT Produtivo Café foi lançado. A produtividade média estadual é de 28 sacas/hectare, ainda abaixo da média nacional de 30 sacas/ha, mas com potencial de crescimento devido à adoção de mudas clonais e kits de irrigação. A área total cultivada no estado atingiu 9,5 mil hectares em 2024, com crescimento de 0,9% na área em produção.
2. Processamento e Qualidade
O café mato-grossense passa por processos de pós-colheita que variam conforme a escala de produção:
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Secagem em Terreiro: Método tradicional, amplamente utilizado por pequenos produtores, com rigoroso controle de umidade para preservar a qualidade dos grãos.
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Beneficiamento Mecânico: Grandes produtores investem em máquinas descascadoras e secadoras para agilizar o processamento e agregar valor.
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Cafés Especiais: A busca por certificações como Cafés Sustentáveis do Brasil, Rainforest Alliance e Fair Trade tem crescido, especialmente para atender mercados internacionais que valorizam sustentabilidade e qualidade sensorial. Cafés de Mato Grosso, especialmente arábica, apresentam notas frutadas e achocolatadas, conquistando nichos premium.
A qualidade sensorial é reforçada por projetos de validação de clones conduzidos pela Empaer, que buscam grãos com características únicas para competir no mercado de cafés especiais.
3. Comercialização e Mercado
Canais de Venda
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Bolsa de Mercadorias (B3): Uma parcela significativa da produção é comercializada via contratos futuros, garantindo estabilidade de preços frente à volatilidade do mercado.
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Exportação: Em 2024, Mato Grosso exportou cerca de 20 mil sacas de café, principalmente para Europa e Estados Unidos, via portos de Santos (SP) e Itajaí (SC), segundo dados do Comex Stat. O aumento de 28,8% nas exportações brasileiras de café (50,5 milhões de sacas) reflete a competitividade do produto mato-grossense no exterior.
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Mercado Interno: A venda direta para torrefadoras regionais, especialmente em Goiás e São Paulo, atende à crescente demanda por cafés de origem. Em 2024, 40,4% da produção brasileira foi destinada ao mercado interno, com Mato Grosso contribuindo para torrefadoras de médio porte.
Preços
Em 2025, a saca de 60 kg de café arábica tipo 6 (média qualidade) varia entre R$ 1.200 e R$ 1.500, impulsionada pela alta global nas bolsas de Nova Iorque (arábica) e Londres (robusta). A valorização do dólar (média de R$ 6,10/US$ em 2024) e a restrição global de estoques, estimada em 20,9 milhões de sacas, sustentam preços elevados. Cafés certificados e especiais chegam a atingir R$ 2.000/saca, refletindo a crescente demanda por produtos diferenciados.
4. Desafios e Oportunidades
Desafios
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Logística: A distância dos portos de exportação eleva custos de transporte, impactando a competitividade. Investimentos em infraestrutura de armazenamento são necessários para reduzir perdas pós-colheita.
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Clima: Restrições hídricas e altas temperaturas durante a floração, observadas em 2024, afetaram a produtividade, especialmente para o café arábica, que sofreu redução de 12,4% na estimativa nacional para 2025.
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Custos de Produção: Embora os custos de insumos como fertilizantes (+0,7%) e defensivos (-0,35%) tenham se estabilizado, a dependência de tecnologia e mão de obra especializada pressiona os orçamentos.
Oportunidades
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Expansão de Áreas: O Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMA-MT) projeta que a produção de café no estado pode alcançar 300 mil sacas até 2026, com expansão de áreas cultivadas e melhoria na produtividade.
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Sustentabilidade e Certificações: A crescente demanda por cafés certificados abre portas para mercados premium, especialmente na Europa, onde a sustentabilidade é um diferencial competitivo.
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Tecnologia e Inovação: Ferramentas como monitoramento por satélite (Farmonaut) e clones de alta produtividade podem elevar a eficiência e reduzir custos, consolidando Mato Grosso como um fornecedor de cafés de alta qualidade.
Conclusão
Mato Grosso solidifica sua posição como um novo protagonista na cafeicultura brasileira, combinando inovação tecnológica, práticas sustentáveis e potencial de escala. Com o apoio do programa MT Produtivo Café, que entregou 300 mil mudas clonais e 98 kits de irrigação entre 2022 e 2023, o estado avança rumo à meta de se tornar um dos principais produtores nacionais. Investimentos em logística, certificações e pesquisa de clones podem posicionar o café mato-grossense como referência de qualidade no mercado global, atendendo à crescente demanda por cafés especiais e sustentáveis.
Referências:
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Conab (2025). Acompanhamento da Safra Brasileira de Café.
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IMA-MT (2024). Dados de produtividade agrícola.
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Comex Stat (2024). Exportações de café por estado.
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Empaer (2024). Relatório de pesquisa sobre clones de café
