Confirmação de uma “Super Safra” próxima de 178 milhões de toneladas para o ciclo 2025/26 expõe, novamente, o déficit histórico de armazenagem e pressiona a logística nacional.
Por Redação Mais Nortão | 02 de Dezembro de 2025
O agronegócio brasileiro está prestes a realizar mais um feito histórico. Os relatórios de dezembro, tanto da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) quanto das principais consultorias privadas do mercado, consolidaram a previsão: o Brasil deve colher a maior safra de soja de todos os tempos no ciclo 2025/26.
Se da “porteira para dentro” a notícia é motivo de celebração pela eficiência e tecnologia aplicada pelo produtor, da “porteira para fora” ela acende o sinal vermelho máximo para a infraestrutura logística do país. O desafio agora não é mais produzir, mas sim, escoar e armazenar.
As projeções indicam uma produção de soja em torno de 177,6 milhões de toneladas. Este volume representa um crescimento significativo em relação à safra passada, impulsionado tanto por um leve aumento de área quanto pela recuperação de produtividade em regiões que sofreram com o clima no ciclo 24/25.
Para se ter uma dimensão do desafio, o Brasil precisa movimentar, em uma janela curta de tempo (principalmente entre fevereiro e abril de 2026), um volume de grãos que poucos países no mundo produzem em um ano inteiro.
O ponto crítico dessa equação é o déficit estático de armazenagem. Historicamente, a capacidade do Brasil de guardar grãos (em silos nas fazendas, cooperativas e tradings) cresce em um ritmo muito mais lento do que a produção no campo.
Dados do setor indicam que a capacidade estática do Brasil cobre pouco mais de 65% a 70% da produção total de grãos (somando soja e milho safrinha). Isso significa que, assim que a colheitadeira passa, cerca de um terço de toda a produção nacional não tem onde ser guardada adequadamente e precisa, obrigatoriamente, ir para cima de um caminhão em direção aos portos.
Essa necessidade urgente de “desovar” a safra gera um efeito cascata no mercado financeiro da soja, conhecido como pressão nos prêmios de exportação.
Oferta Desesperada: Com muitos produtores e cooperativas tentando vender e embarcar ao mesmo tempo, o comprador internacional (principalmente a China) percebe a urgência.
Prêmio Negativo: O “prêmio” (a diferença entre o preço pago no porto brasileiro e o valor de referência na Bolsa de Chicago) tende a ficar negativo. Na prática, o mercado paga um deságio pela soja brasileira no pico da safra, corroendo a margem de lucro do produtor, mesmo com a saca valorizada em dólares.
Frete nas Alturas: A demanda simultânea por caminhões para rotas longas (como Sorriso-Miritituba ou Sorriso-Santos) faz o preço do frete disparar, adicionando mais custo à operação.
Diante dessa “Super Safra” e dos gargalos conhecidos, quais são as possibilidades para mitigar o caos logístico em 2026 e nos próximos anos?
A Solução Ideal (Longo Prazo): Armazenagem na Fazenda. Apenas cerca de 15% das fazendas brasileiras possuem silos próprios (nos EUA, esse número passa de 60%). O produtor que investe em armazenagem ganha o poder de não vender na colheita, fugindo dos prêmios negativos e do frete caro, aguardando melhores janelas de mercado no segundo semestre.
A Válvula de Escape (Médio Prazo): O Arco Norte. Os portos do Arco Norte (como Barcarena/PA e Itaqui/MA) continuam sendo fundamentais para escoar a produção do Mato Grosso e do Matopiba, aliviando os portos do Sul/Sudeste. A conclusão das obras de pavimentação e a melhoria nas hidrovias são cruciais para aumentar a capacidade desses corredores.
A Estratégia Comercial (Curto Prazo): Venda Cadenciada. Para a safra 2025/26, a recomendação dos analistas é evitar, ao máximo, deixar para vender grandes volumes “na boca da safra”. A comercialização antecipada (barter ou hedge) e o uso de ferramentas financeiras que permitam segurar o grão físico são essenciais para não ficar refém do gargalo logístico de fevereiro e março.
O Brasil prova novamente sua competência produtiva. No entanto, a safra de 177,6 milhões de toneladas é um ultimato: ou o país trata a logística e a armazenagem como prioridade de Estado e da iniciativa privada, ou continuaremos vendo a riqueza produzida no campo ser consumida pelas ineficiências da estrada e do porto.