Estrangulados por juros altos, endividamento recorde e preços internacionais em queda, produtores reduzirão área plantada em quase 10%; Mato Grosso lidera o recuo e lideranças cobram medidas de liquidez urgentes ao BNDES e Ministério da Agricultura.
Por Redação Agro, Sinop (MT) 03 de Dezembro de 2025
Uma “tempestade perfeita” financeira está se formando sobre a cotonicultura brasileira. A euforia dos recordes de exportação recentes deu lugar a um cenário de cautela extrema e projeções alarmantes para o próximo ciclo. Dados apresentados na última reunião do ano da Câmara Setorial do Algodão, realizada nesta semana, indicam que a safra 2026 sofrerá uma retração significativa, forçada não pelo clima, mas pelo bolso do produtor.
A Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) soou o alarme: o setor projeta uma queda de 9,9% na produção total, estimada agora em 3,829 milhões de toneladas para 2026. Para ajustar as contas, os produtores serão obrigados a reduzir a área plantada em 5,5% em todo o território nacional.
O diagnóstico do setor é claro: a conta não está fechando. A decisão de plantar menos é uma resposta direta a um cenário de liquidez comprometida. As lideranças apontam três fatores principais que estão asfixiando a rentabilidade:
Endividamento Elevado: O custo acumulado das últimas safras pesou no balanço das fazendas.
Juros Altos: O custo do crédito no Brasil torna o financiamento da lavoura de algodão – que já é uma das mais caras por hectare – proibitivo para muitos.
Preços Internacionais Deprimidos: A cotação da pluma no mercado global caiu, achatando as margens de lucro.
Segundo Marcio Portocarrero, diretor executivo da Abrapa, a combinação entre crédito restrito e preços baixos afetou diretamente a capacidade de investimento do produtor.
O recuo será sentido com mais força nas principais locomotivas da produção nacional:
Mato Grosso (O mais afetado): Maior produtor nacional, o estado sente o golpe mais duro. A Ampa (Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão) calcula um recuo de 10% na produção estadual, citando diretamente o endividamento e a alta dos juros como os vilões.
Bahia: Segundo maior polo, a Bahia tenta segurar as pontas com a produção irrigada, mas ainda assim a Abapa prevê uma redução de 2,5%.
A crise expõe um paradoxo cruel para o agro brasileiro. Marcelo Duarte, diretor da Abrapa, destacou que o Brasil se consolidou como o maior exportador mundial da pluma, superando concorrentes históricos. No entanto, devido à queda nas cotações globais, o país está exportando volumes recordes, mas arrecadando menos receita proporcionalmente.
A dependência externa segue alta: a China ainda compra 20% de tudo que o Brasil exporta, embora novos mercados, como a Índia, estejam crescendo (importando 92 mil toneladas entre julho e novembro).
No mercado interno, outro problema: A indústria têxtil nacional (Abit) alerta que está perdendo competitividade para o fio importado da China e para o avanço das fibras sintéticas, que já dominam 56% do mercado, pressionando ainda mais a demanda pela pluma natural brasileira.
Diante do risco iminente de quebra na safra 2026 por inviabilidade econômica, a Câmara Setorial cobrou ações emergenciais do governo federal. As demandas principais incluem:
Acesso a Crédito: Liberação de linhas emergenciais via BNDES para garantir liquidez aos produtores.
Políticas Públicas: Medidas de apoio à comercialização (como o acesso ao mecanismo de Prepo) e estímulo ao consumo da fibra natural no mercado interno e externo.
O recado do setor para Brasília foi direto: sem um “colchão” financeiro estatal, o ciclo de crescimento do algodão brasileiro será interrompido bruscamente em 2026.
Reunião da Câmara Setorial do Algodão (Dezembro/2025).
Dados e projeções da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).
Dados regionais da Ampa (MT) e Abapa (BA).
Revista Cultivar: “Setor algodoeiro cobra políticas públicas para enfrentar crise” (03/12/2025).