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Recuperação de Pastagens no Norte de Mato Grosso: Fertilizantes Orgânicos como Chave para Qualidade e Sustentabilidade no Gado

O Norte de Mato Grosso, conhecido como Nortão, é um dos principais polos da pecuária brasileira, com mais de 10 milhões de cabeças de gado distribuídas em cerca de 5 milhões de hectares de pastagens. No entanto, a expansão extensiva da atividade, aliada a solos pobres do bioma Amazônico e manejo inadequado, resultou em degradação severa de até 80% das áreas, marcada pela “síndrome da morte da brachiária” – uma doença fúngica que compromete a produtividade das forrageiras como Brachiaria brizantha. Diante desse cenário, iniciativas de readequação de pastagens ganham força, com ênfase em fertilizantes orgânicos para restaurar a fertilidade do solo, elevar a qualidade nutricional do capim e impulsionar a sustentabilidade da cadeia produtiva. Programas como o Plano ABC+ e ações da Embrapa visam recuperar 4,4 milhões de hectares degradados em Mato Grosso até 2030, podendo elevar o PIB estadual em até 12% ao triplicar a produção de arroba por hectare.

A readequação não é apenas uma correção técnica, mas uma estratégia econômica e ambiental. Estudos indicam que pastagens recuperadas podem aumentar a lotação animal de 1-2 cabeças/ha para 4-6 cabeças/ha, reduzindo a pressão por desmatamento e melhorando a qualidade da carne. Neste artigo, exploramos os desafios, técnicas de recuperação, o potencial dos fertilizantes orgânicos e os impactos na qualidade das pastagens para o gado.

Degradação das Pastagens: Um Desafio Crônico no Nortão

No Norte de Mato Grosso, municípios como Sinop, Nova Canaã do Norte e Vila Rica concentram a pecuária extensiva, onde solos arenosos e ácidos do Cerrado-Amazônico sofrem com compactação, erosão e perda de matéria orgânica. Relatórios da Embrapa apontam que a degradação evolui em etapas: perda inicial de vigor (redução de 20-30% na biomassa), seguida de invasão por plantas daninhas e, finalmente, incapacidade de sustentar níveis produtivos. Em 2023, cerca de 2,5 milhões de hectares no estado estavam em estágio avançado de degradação, com o Nortão respondendo por 40% desse total.

A “síndrome da morte da brachiária”, identificada desde 2013, afeta pastagens acima de Sinop, destruindo até 80% das áreas com sintomas como murcha e necrose. Isso resulta em menor ganho de peso diário (GPD) dos animais – de 0,8 kg/dia em pastos saudáveis para menos de 0,4 kg/dia em degradados – e maior emissão de metano por unidade de carne produzida. Além disso, a baixa qualidade nutricional das forrageiras degradadas, com redução de proteína bruta de 12% para 6-8%, compromete a saúde do rebanho e aumenta custos com suplementação mineral.

Estratégias de Readequação: Da Correção à Integração

A readequação de pastagens envolve diagnóstico do solo (análise de pH, nutrientes e estrutura), seguido de intervenções como calagem, adubação e plantio de novas forrageiras. No Nortão, técnicas como o pastejo rotacionado e a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) são priorizadas, com recuperação via semeadura direta sobre palhada para minimizar erosão. O custo médio de recuperação varia de R$ 1.500 a R$ 3.000 por hectare, com retorno em 2-3 anos via maior produtividade.

Projetos como o Pasto Forte, da Fundação de Amparo à Pesquisa de Mato Grosso, demonstram que investimentos em manejo podem elevar a produção de 1 arroba/ha/ano para 3-4 arrobas/ha, sem expansão de área. No âmbito estadual, o Plano de Adaptação à Mudança do Clima aloca recursos para 4,4 milhões de ha até 2030, com foco no Norte para mitigar emissões de CO2 – pastagens degradadas emitem até 20 tCO2e/ha/ano a mais que as recuperadas.

Fertilizantes Orgânicos: Sustentabilidade e Nutrição Eficiente

Os fertilizantes orgânicos emergem como alternativa aos químicos, especialmente em solos amazônicos sensíveis à lixiviação. Opções como biossólidos (lamas de esgoto tratadas), dejetos de bovinos, composto orgânico e adubação verde (ex.: Crotalaria e Moringa oleifera) fornecem nutrientes de liberação lenta, melhoram a estrutura do solo e promovem microbiota benéfica. Um estudo da Embrapa Rondônia, aplicável ao Nortão, mostrou que a aplicação de 20 t/ha de biossólido eleva o pH de 4,5 para 5,8 e aumenta a matéria orgânica em 2-3%, resultando em 40% mais biomassa forrageira.

No caso da Moringa oleifera, usada como biofertilizante, suas folhas ricas em nitrogênio (25-30% proteína) e micronutrientes aceleram a recuperação, com ganhos de 30% na produtividade de Brachiaria em testes. Fertilizantes organominerais – mistura de orgânicos com minerais – combinam benefícios, reduzindo custos em 20-30% e minimizando impactos ambientais. Para gado orgânico, regulamentado pela Lei 10.831/2003, o uso exclusivo de pastagens com adubação verde é obrigatório, elevando o valor da carne em 20-50% no mercado premium.

Impacto na Qualidade das Pastagens e Produtividade do Gado

Pastagens readequadas com orgânicos exibem maior qualidade nutricional: maior teor de proteína (10-15%), digestibilidade (65-70%) e palatabilidade, levando a GPD de 0,9-1,2 kg/dia e lotação de 4 UA/ha. Em Nova Canaã do Norte, produtores recuperaram 150 ha com dejetos bovinos, triplicando a carga animal e reduzindo custos com ração em 40%. A qualidade do solo melhora com aumento de 15-20% na capacidade de retenção de água, essencial no clima seco do Nortão.

Dados do WWF indicam que recuperação integrada diminui a abertura de novas áreas em 70%, fortalecendo a conservação. No bioma Amazônico, isso alinha-se aos ODS da ONU, com potencial de remoção de 10-15 tCO2e/ha/ano via sequestro de carbono em solos revitalizados.

Casos de Sucesso e Perspectivas Futuras

Em Vila Rica, o programa Aliança pela Conservação do Bioma Mata Atlântica recuperou 200 ha com fertilizantes orgânicos, elevando a renda dos produtores em 25%. A Embrapa estima que, com adoção ampla, o Nortão pode produzir 20% mais carne sustentável até 2030. Desafios persistem, como acesso a insumos orgânicos e capacitação, mas parcerias público-privadas, como o da Agraer em MS (adaptável a MT), mostram viabilidade.

A readequação com foco em orgânicos não só resgata pastagens, mas constrói um modelo pecuário resiliente, priorizando qualidade para o gado e o planeta.

Referências Principais:

  • Embrapa (2020). Recuperação de pastagens degradadas. Disponível em: [link]
  • Sedec-MT (2023). MT vai trabalhar para recuperar pastagens degradadas. Disponível em: [link]
  • ResearchGate (2022). Recuperação de pastagem degradadas através da utilização de biossólido e Moringa oleifera. Disponível em: [link]
  • WWF Brasil (2025). Programa de recuperação de pastagens. Disponível em: [link]
  • Agrolink (2013). MT: Situação das pastagens é crítica no nortão. Disponível em: [link]
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