Introdução
Na terça-feira, 15 de julho de 2025, a Raízen, uma das maiores empresas do setor sucroenergético do Brasil e joint venture entre Cosan e Shell, anunciou a suspensão por tempo indeterminado das operações da Usina Santa Elisa, localizada em Sertãozinho, São Paulo. A decisão, que faz parte de uma estratégia de “reciclagem de portfólio” para aumentar a eficiência agroindustrial e reduzir o endividamento, gerou grande repercussão na região, conhecida como um dos principais polos sucroenergéticos do país. Este artigo detalha os motivos da suspensão, os impactos econômicos e sociais, as transações associadas e o contexto histórico da usina, com base em informações de fontes confiáveis e postagens recentes.
Contexto da Decisão
A Raízen enfrenta desafios financeiros significativos, com uma dívida líquida de R$ 34 bilhões na safra 2024/25, que elevou sua alavancagem para 3,2 vezes o EBITDA, conforme dados recentes. A empresa, que opera 35 parques de bioenergia com capacidade de moagem de 105 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, vem implementando um plano de reestruturação para otimizar seus ativos e reduzir despesas. A suspensão da Usina Santa Elisa é parte desse movimento, que inclui a venda de outros ativos, como a Usina Leme (vendida por R$ 425 milhões em maio de 2025) e projetos de geração solar distribuída (R$ 475 milhões).
A decisão foi comunicada ao mercado por Rafael Bergman, CFO e Diretor de Relações com Investidores da Raízen, que destacou a necessidade de focar em operações mais rentáveis e sinérgicas, como a produção de etanol de segunda geração (E2G). A companhia também enfrenta pressões externas, como a instabilidade climática, que reduziu a produtividade dos canaviais, e um cenário de alta competitividade no mercado de açúcar e etanol.
Detalhes da Suspensão e Venda de Ativos
Como parte da estratégia, a Raízen Energia fechou contratos para a venda de até 3,6 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, incluindo produção própria e contratos com fornecedores, por um valor estimado de R$ 1,045 bilhão. O montante será pago à vista no fechamento da operação, sujeito a ajustes, e destinado à redução do endividamento da empresa. O múltiplo implícito da transação é de aproximadamente US$ 53 por tonelada de cana, excluindo o ativo industrial da usina.
As usinas adquirentes incluem:
-
São Martinho, que comprou 10.600 hectares de cana por até R$ 242 milhões. As áreas, localizadas a 25 km da unidade São Martinho em Pradópolis (SP), devem gerar 600 mil toneladas de cana na safra 2026/27 e 800 mil toneladas a partir de 2028/29.
-
Usina Alta Mogiana, Usina Bazan, Usina Batatais, Pitangueiras Açúcar e Álcool Ltda., e Viralcool – Açúcar e Álcool Ltda., que também adquiriram parcelas da produção.
A conclusão da operação depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e do cumprimento de condições contratuais. A Raízen informou que manterá o mercado atualizado sobre os desdobramentos.
Impactos na Economia Local
A Usina Santa Elisa, fundada em 1936 por Maurílio Biagi, é um marco histórico em Sertãozinho, com capacidade de moagem de 6,1 milhões de toneladas de cana por safra e operação em 36,4 mil hectares de lavoura. Conhecida como “Santelisa” por funcionários e moradores, a usina foi gerida por três gerações da família Biagi antes de ser vendida à Louis Dreyfus Company (LDC) em 2009 e adquirida pela Raízen em 2021. A suspensão das operações gerou preocupações significativas na região, tanto pelo impacto econômico quanto pelo simbolismo cultural da unidade.
Empregos
A Prefeitura de Sertãozinho estima que 1.200 profissionais atuavam na usina, enquanto o sindicato da categoria aponta que até 2.000 trabalhadores, diretos e indiretos, podem ser impactados. A Raízen não divulgou informações sobre realocação de funcionários para outras unidades, e o sindicato está em diálogo com a empresa para negociar possíveis benefícios aos trabalhadores afetados. Vídeos nas redes sociais mostram trabalhadores surpresos com a decisão e a presença de equipes da Polícia Militar na entrada da usina, refletindo a tensão no local.
Efeito Cascata
O Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis (Ceise Br) expressou preocupação com o “efeito cascata” na cadeia produtiva local, destacando riscos de rompimento de contratos de manutenção, suporte técnico e fornecimento. A entidade enfatizou a necessidade de preservar empregos e a estabilidade financeira de empresas que dependem da usina, além de manter a capacidade instalada e o estímulo à inovação e sustentabilidade no setor.
Sertãozinho, um polo agroindustrial, já enfrentou desafios semelhantes, como a suspensão da Usina Bom Retiro em Capivari (SP) em 2015, que resultou na demissão de 250 trabalhadores. A paralisação da Santa Elisa reforça temores sobre o futuro do setor sucroenergético na região.
Contexto Histórico e Repercussão
A Usina Santa Elisa é um ícone do setor sucroenergético, com uma história de quase 90 anos. Maurilio Biagi Filho, filho do fundador, lamentou a decisão, destacando o papel da usina no desenvolvimento industrial de Sertãozinho e sua trajetória pessoal na empresa. “Essa usina faz parte da minha história pessoal e da história da nossa região,” afirmou, expressando esperança de que os impactos sejam minimizados.
A suspensão também ocorre em um momento de desafios adicionais para a Raízen. Em agosto de 2024, um incêndio de grandes proporções atingiu um canavial próximo à usina, paralisando temporariamente as operações. Embora não tenha atingido o parque industrial, o incidente destacou a vulnerabilidade da região a condições climáticas adversas, como baixa umidade e fortes ventos.
A decisão da Raízen reflete um movimento mais amplo de reestruturação no setor sucroenergético, com foco em eficiência e redução de custos. A empresa já sinalizava a venda de outras unidades, como as usinas Rio Brilhante, Passatempo e Continental, além de ativos na Argentina, para aliviar a pressão financeira.
Perspectivas Futuras
A Raízen planeja concentrar recursos em operações mais estratégicas, como o etanol de segunda geração, e continuar sua liderança em bioenergia. A empresa mantém 35 parques de bioenergia e 1,3 milhão de hectares cultivados, com colheita 100% mecanizada. Apesar do fechamento da Santa Elisa, a companhia destaca seu compromisso com a sustentabilidade, possuindo certificações como Bonsucro e Etanol Verde, além de autorizações para exportar etanol aos EUA e à Califórnia.
A São Martinho, uma das compradoras, vê sinergias na aquisição dos 10.600 hectares de cana, que serão processados em sua unidade em Pradópolis, reforçando sua posição no polo sucroenergético de Ribeirão Preto. A operação não exigirá investimentos adicionais significativos, limitando-se a custos variáveis.
Conclusão
A suspensão das operações da Usina Santa Elisa marca o fim de uma era para Sertãozinho e o setor sucroenergético brasileiro. Embora a Raízen justifique a decisão como necessária para melhorar sua saúde financeira e eficiência operacional, os impactos na economia local, nos empregos e na cadeia produtiva são significativos. A venda de 3,6 milhões de toneladas de cana por R$ 1,045 bilhão reflete a estratégia de desinvestimento da companhia, que busca reduzir uma dívida de R$ 34 bilhões. A aprovação do Cade será crucial para a conclusão da transação, enquanto a região aguarda medidas para mitigar os efeitos sociais e econômicos. A história da “Santelisa” permanece como um símbolo do desenvolvimento agroindustrial, mas seu futuro permanece incerto.
Fontes:
-
G1 Ribeirão Preto e Franca
-
Exame
-
InfoMoney
-
MixVale
-
ACidade ON Ribeirão Preto
-
Visão Agro
-
Diário do Povo
-
MegaWhat
-
O Defensor
-
Folha de S.Paulo
-
BPMoney
-
Money Report
-
NovaCana
-
Postagens no X
