Durante o 17º Summit do BRICS, realizado nos dias 6 e 7 de julho de 2025 no Rio de Janeiro, o ministro da Agricultura e Pecuária do Brasil, Carlos Fávaro, anunciou que a China está revisando os protocolos para suspender o embargo às importações de carne de frango brasileiro. O embargo, iniciado em 16 de maio de 2025, foi imposto após a confirmação de um caso de influenza aviária de alta patogenicidade (IAAP) em uma granja comercial em Montenegro, Rio Grande do Sul. A medida, prevista em acordos bilaterais, suspendeu as exportações nacionais de frango por 60 dias, impactando o Brasil, maior exportador mundial de carne de frango.
A China é o principal destino da carne de frango brasileira, importando 562 mil toneladas em 2024, o que representou 10,8% do total exportado pelo Brasil, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). O embargo gerou uma queda de 23% nas exportações de frango in natura em junho de 2025, totalizando 314 mil toneladas, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). A retomada das importações é vista como crucial para o setor avícola brasileiro, que exportou 5,2 milhões de toneladas em 2024, gerando uma receita de US$ 9,9 bilhões.
Negociações e Medidas Sanitárias
O governo brasileiro tem trabalhado para convencer a China a limitar o embargo ao município de Montenegro, onde o caso foi identificado, em vez de aplicá-lo a todo o país. Desde maio, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) implementou medidas rigorosas de contenção, incluindo o abate de cerca de 17 mil aves na granja afetada, desinfecção da área e rastreamento da produção para evitar novos focos. Segundo o Mapa, o caso foi considerado isolado, e o Brasil notificou a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) sobre o encerramento do surto, o que abriu caminho para negociações com parceiros comerciais.
Durante a cúpula do BRICS, Fávaro discutiu o tema em uma reunião bilateral entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro chinês, Li Qiang. O ministro destacou que os chineses prometeram avaliar rapidamente os protocolos para retomar as importações, com base nas informações fornecidas sobre as medidas sanitárias adotadas. “Eu tive a oportunidade de reforçar a transparência e a eficiência do sistema sanitário brasileiro. O primeiro-ministro disse que já sabia do caso e que estão estudando os protocolos rapidamente,” afirmou Fávaro.
Outros países, como Japão, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Filipinas, já adotaram a regionalização do embargo, restringindo apenas as importações do Rio Grande do Sul, o que minimizou impactos nas exportações. No entanto, a China e a União Europeia mantiveram a suspensão total, afetando significativamente o setor. Até o momento, nove mercados ainda impõem restrições, sendo China e União Europeia os mais relevantes.
Impactos Econômicos
O embargo chinês gerou reflexos imediatos no mercado brasileiro. A suspensão das exportações, que custa ao Brasil mais de US$ 100 milhões por mês, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), levou a um aumento da oferta interna de frango. Isso resultou em uma redução nos preços ao consumidor, com o frango inteiro e em pedaços registrando quedas em algumas regiões, conforme análise do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP).
Por outro lado, o setor avícola enfrenta desafios com a perda de receita no mercado externo. O Brasil, que responde por cerca de 35% das exportações globais de frango, depende fortemente da China, que importou US$ 1,288 bilhão em carne de frango e derivados em 2024. Além disso, a proibição de importação de pés de frango, um produto valorizado no mercado chinês, elevou os preços desse corte em até um terço desde 2022, segundo dados do mercado agrícola Xinfadi, em Pequim.
Estados como Paraná–
, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que concentram 78% das exportações brasileiras de frango, foram os mais afetados. Mato Grosso do Sul, outro grande exportador, redirecionou parte de sua produção para o mercado interno e outros destinos, como os Emirados Árabes Unidos, que importaram 455 mil toneladas em 2024. Apesar dos impactos, a Avimasul destacou que o rigoroso sistema sanitário brasileiro reforça a confiança na rápida retomada das exportações.
Perspectivas para a Retomada
O Brasil espera restabelecer o fluxo comercial com a China antes do prazo inicial de 60 dias, que termina em 15 de julho de 2025. O ministro Fávaro expressou otimismo, afirmando que, com a eliminação do foco em 28 dias e a transparência nas ações sanitárias, é possível retomar as exportações em menos tempo. A OMSA deve declarar o Brasil livre da gripe aviária em cerca de 90 dias a partir do fim do surto, o que pode acelerar a reabertura de outros mercados.
Sete países já suspenderam suas restrições ao frango brasileiro na última semana, segundo o Mapa, e o governo continua negociando com os demais. A Frente Parlamentar da Agropecuária, que reúne 353 parlamentares, tem apoiado as tratativas, destacando a importância de mitigar os impactos econômicos no setor. A retomada das exportações para a China é vista como essencial para recuperar a receita de US$ 9,9 bilhões gerada pelo setor em 2024 e manter a competitividade global do Brasil.
Medidas de Biossegurança
O Mapa reforça que a gripe aviária não é transmitida pelo consumo de carne de frango ou ovos cozidos, tranquilizando a população. O vírus, detectado em Montenegro, foi contido com o abate de todas as aves da granja e a desinfecção da área. Medidas como controle de acesso às granjas, higiene rigorosa e monitoramento constante foram intensificadas para evitar novos casos. A OMS e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) confirmam que o risco de infecção em humanos é baixo, ocorrendo apenas em contato direto e prolongado com aves infectadas.
Conclusão
A possível retomada das importações de frango brasileiro pela China representa um alívio para o setor avícola, que enfrenta perdas significativas desde maio de 2025. As negociações em curso durante o BRICS, aliadas às robustas medidas sanitárias adotadas pelo Brasil, reforçam a confiança na rápida reabertura do mercado chinês. A agilidade do governo brasileiro e a credibilidade do sistema sanitário nacional são fatores-chave para mitigar os impactos do embargo e recuperar a posição do Brasil como líder global na exportação de carne de frango.
Referências
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Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Dados de exportação de carne de frango, 2024.
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Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Comunicados sobre gripe aviária e medidas sanitárias, maio-julho de 2025.
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Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Relatório de exportações de frango in natura, junho de 2025.
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Reuters. “China studies resuming chicken imports from Brazil, minister says,” 6 de julho de 2025.
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CNN Brasil. “Governo negocia com China para regionalizar suspensão do frango brasileiro,” 20 de maio de 2025.
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Globo. “China suspende importação de carne de frango do Brasil por 60 dias,” 16 de maio de 2025.
